Em outubro de 2025, a Âmbar Energia — braço energético do grupo J&F — comprou a participação da Eletrobras na Eletronuclear, marcando a primeira entrada do setor privado na geração nuclear brasileira. No mesmo mês, a Google concluiu o primeiro acordo corporativo de compra de energia nuclear do mundo. E a IEA publicou projeções indicando que a capacidade nuclear global pode crescer de 420 GW para 728 GW até 2050. O renascimento nuclear não é mais uma hipótese — é um dado observável.
Este artigo analisa o que está acontecendo, por que está acontecendo agora, e o que isso significa especificamente para o Brasil — um país com a sétima maior reserva de urânio do mundo, uma usina há 11 anos em construção, e 88% de sua eletricidade já proveniente de fontes renováveis.
1. Duas décadas de declínio — os dados reais
Qualquer análise honesta do nuclear precisa começar com um dado inconveniente: desde 2000, o nuclear perdeu participação na eletricidade global. Não porque a geração absoluta tenha caído muito — ela ficou relativamente estável. O problema foi que todas as outras fontes cresceram mais rápido.
O gráfico revela o paradoxo nuclear do século XXI: a geração em TWh permaneceu relativamente estável (entre 2.500 e 2.750 TWh/ano), mas a participação despencou de 16,6% para 9,0% — porque solar, eólica e gás cresceram muito mais rápido. Fukushima (2011) acelerou o declínio, forçando o Japão a desligar quase toda sua frota (de 29% para 4% da eletricidade) e a Alemanha a anunciar sua saída total (concluída em 2023).
2. O paradoxo dos países — quem cresce, quem cai
| País | 2000 (TWh) | 2023 (TWh) | % elétric. 2023 | Tendência |
|---|---|---|---|---|
| EUA | 753,9 | 774,9 | 18,2% | Estável — frota envelhecida |
| China | 16,7 | 434,7 | 4,6% | 📈 +2.500% — 25 reatores em construção |
| França | 415,2 | 338,2 | 65,4% | 📉 Envelhecimento + manutenção (pico 78%) |
| Rússia | 130,7 | 217,4 | 18,4% | 📈 Exporta reatores VVER para 10+ países |
| Coreia do Sul | 109,0 | 180,5 | 29,2% | 📈 APR1400 — referência de custo e prazo |
| Japão | 319,1 | 77,5 | 7,7% | 📉 Fukushima (2011) — lenta retomada |
| Alemanha | 169,6 | 7,2 | 1,4% | 📉 Saída total em 2023 — decisão política |
| Brasil | 6,0 | 14,5 | 2,0% | ➡ Estagnado — Angra 1 e 2 sem expansão |
| Índia | 15,8 | 48,2 | 2,5% | 📈 7 reatores em construção — plano 100 GW/2047 |
O dado mais revelador é o da China: de 16,7 TWh em 2000 para 434,7 TWh em 2023 — crescimento de 2.500%. Dos 52 reatores que iniciaram construção no mundo desde 2017, 25 são de design chinês e 23 de design russo. O mundo ocidental, que inventou a energia nuclear, cedeu a liderança de construção para os países do eixo sino-russo.
3. Os SMRs — a aposta tecnológica que mudou o jogo
Os Reatores Modulares Pequenos (SMRs) são reatores com capacidade de até 300 MW (vs ~1.200 MW dos grandes reatores), projetados para construção em fábrica e instalação modular no campo. A diferença não é apenas de tamanho — é de modelo de negócio.
A Big Tech entra no nuclear
Em outubro de 2024, a Google fechou o primeiro contrato corporativo de compra de energia nuclear da história: 500 MW da empresa Kairos Power via 6–7 reatores de sal fundido, com o primeiro reator previsto para 2030. A Amazon comprometeu mais de US$ 500 milhões com a Energy Northwest e a X-energy. A Microsoft contratou a reativação da Unidade 1 de Three Mile Island — a mesma usina do maior acidente nuclear americano — para fornecer 837 MW de energia limpa aos seus data centers a partir de 2028.
A lógica é direta: data centers de IA consomem 50–100 MW cada, funcionam 24 horas, não toleram intermitência e precisam de energia com baixa emissão de carbono para os compromissos ESG. Solar e eólica não atendem esses três critérios simultaneamente. O nuclear, sim.
4. Projeções IEA até 2050 — o cenário de renascimento
O relatório IEA "The Path to a New Era for Nuclear Energy" (2025) projeta crescimento de 420 GWe para pelo menos 728 GWe até 2050 no cenário de políticas anunciadas. No cenário de crescimento rápido, com SMRs atingindo paridade de custo, a capacidade pode ultrapassar 1.000 GWe. Mais de 40 países têm planos concretos de expansão.
5. O Brasil e o paradoxo da riqueza nuclear
O Brasil ocupa uma posição singular no tabuleiro nuclear global: é o sétimo maior detentor de reservas de urânio do mundo, domina toda a cadeia de enriquecimento, tem duas usinas operando desde 1982 e 2001 — e ainda assim gera apenas 2% de sua eletricidade com nuclear.
Angra 3 — a obra mais cara do Brasil
Início das obras: 2010 · Paralisada: 2015 (revisão de financiamento) · Retomada: 2022
Conclusão prevista: 2030–2031 · Investimento até hoje: R$ 8,5 bilhões
Custo total estimado: R$ 20 bilhões · Progresso: ~65% concluída
Custo de abandono: R$ 21 bilhões (quitação de financiamentos + rescisão de contratos + desmobilização)
Emissões: 12 gCO₂eq/kWh — menor que solar e eólica em vários estudos de ciclo de vida
Em 2025, a Âmbar Energia (grupo J&F) adquiriu a participação da Eletrobras na Eletronuclear — a primeira incursão do setor privado na geração nuclear brasileira. O CEO da Âmbar, Marcelo Zanatta, foi direto: "O plano de crescimento é para fazer Angra 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10." Além disso, a empresa planeja SMRs para comunidades isoladas da Amazônia — áreas hoje abastecidas por diesel transportado por barco durante dias.
O Plano Nacional de Energia — meta ambiciosa
O Plano Nacional de Energia projeta 8–10 GW de novas usinas nucleares até 2050. Isso significa construir o equivalente a 6–7 usinas do porte de Angra 3 nas próximas duas décadas e meia — com cada usina levando cerca de 7 anos para ser concluída. Para essa escala, seria indispensável um novo marco legal que permita a participação privada e a atração de investimento estrangeiro.
6. O dilema: o Brasil precisa do nuclear?
É a pergunta mais legítima do debate energético brasileiro. Com 88% da eletricidade já renovável, a matriz brasileira é uma das mais limpas do mundo. A resposta, porém, não é simples.
7. Os obstáculos que o mundo não resolveu
| Obstáculo | Situação atual | Perspectiva |
|---|---|---|
| Custo e prazo (grandes reatores) | Flamanville-3 (França): 17 anos, 13× o orçamento original | SMRs prometem romper esse padrão via produção em fábrica |
| Resíduos radioativos | Onkalo (Finlândia): único repositório permanente em operação (2025) | Alta nível de lixo nuclear dura 100.000 anos — sem solução global |
| Concentração tecnológica | Rússia: 40% do enriquecimento global; China/Rússia: 48/52 reatores em construção | EUA + Europa correndo para SMRs ocidentais |
| Combustível HALEU | SMRs avançados exigem urânio enriquecido de alta assay — hoje 100% russo | Centrus (EUA) iniciou produção doméstica em 2023 |
| Aceitação pública | Fukushima (2011) zerou opinião favorável em vários países | Geração Z mostra mais abertura: 53% favoráveis em pesquisas recentes (EUA/Europa) |
O que os dados indicam sobre o futuro nuclear
- O renascimento nuclear já começou — 80+ reatores em construção, 40+ países com planos, e Big Tech como cliente. A questão não é "se", mas "quando" e "quem lidera".
- O Brasil está atrasado, mas não de fora. Angra 3 terá que ser concluída — o custo de abandono (R$ 21 bilhões) supera o de conclusão. A entrada da Âmbar pode destravar investimento privado que o Estado não consegue mais mobilizar sozinho.
- SMRs são a verdadeira disrupção. Se o custo cair para US$ 2.500/kW até 2040, o jogo muda completamente para países como o Brasil. Uma usina de 300 MW na Amazônia para substituir diesel muda toda a equação energética regional.
- China e Rússia dominam o presente. 48 dos 80 reatores em construção são de design chinês ou russo. O Ocidente tem uma janela de 5–10 anos para reconquistar relevância tecnológica com SMRs — ou perder o mercado global de reatores para sempre.
- A questão climática empurra o nuclear. Nuclear emite 12 gCO₂eq/kWh — comparável à eólica offshore. Em cenários de descarbonização profunda, qualquer fonte de base firme com emissões baixas tem valor estratégico.
Artigos relacionados
- Energy Institute — Statistical Review of World Energy 2024. Dataset 232 países (2000–2023). energyinst.org
- IEA — The Path to a New Era for Nuclear Energy (2025). World Energy Outlook 2025. iea.org
- IAEA — Nuclear Power Reactors in the World, RDS-2 2025 Edition. Power Reactor Information System (PRIS). pris.iaea.org
- World Nuclear Association — Plans for New Reactors Worldwide (2025). world-nuclear.org
- Eletronuclear — Angra 3: atualizações sobre o futuro da energia nuclear no Brasil (2025). eletronuclear.gov.br
- IATA / Power Magazine — Advanced Nuclear Investment 2025; SMR investment tracker.
- Exame / Petronotícias — Âmbar Energia e Eletronuclear; PNE projeções 8–10 GW nucleares/2050.
- GIS Reports — What is holding up progress on small modular reactors? (2025). gisreportsonline.com