Há uma narrativa dominante sobre a transição energética que vai mais ou menos assim: solar e eólica estão crescendo exponencialmente, os custos despencaram, os veículos elétricos proliferam, e em 2050 teremos um mundo descarbonizado. É uma narrativa sedutora, sustentada por dados reais de crescimento tecnológico impressionante — e profundamente incompleta.

Dois intelectuais de peso desafiam essa narrativa com rigor e dados, vindo de perspectivas diferentes. Vaclav Smil, cientista de sistemas energéticos, e Jean-Baptiste Fressoz, historiador da energia, chegam a conclusões que incomodam tanto os otimistas tecnológicos quanto os defensores do status quo. Este artigo apresenta seus argumentos, os confronta e os testa com dados reais de 232 países entre 2000 e 2023.

Vaclav Smil

Cientista · Univ. Manitoba · Checo-canadense · n. 1943
  • Mais de 40 livros sobre energia, alimentação e ambiente
  • Bill Gates: "o autor que mais admiro"
  • Obra-chave: How the World Really Works (2022)
  • Argumento central: escala e velocidade importam mais do que %, e a física não negocia prazos políticos
  • Fósseis ainda sustentam os 4 pilares materiais do mundo: aço, cimento, plástico e amônia

Jean-Baptiste Fressoz

Historiador · CNRS/EHESS · Francês · contemporâneo
  • Especialista em história ambiental e das tecnologias
  • Obra-chave: Sans transition (2024)
  • Argumento central: não houve transições energéticas na história — houve acumulações. O conceito de "transição" é político, não científico
  • Renováveis são complementares aos fósseis, não substitutas
  • O "capitalismo verde" não questiona o crescimento — só troca a fonte de energia que o alimenta

1. A tese de Fressoz: não existem transições — existem adições

O argumento mais provocador de Fressoz em Sans transition é histórico: olhando para o registro empírico dos últimos 200 anos, nunca houve uma substituição de uma fonte energética por outra. O que houve foi sempre a adição de novas fontes ao repertório existente, sem que as anteriores desaparecessem. A lenha não desapareceu com o carvão. O carvão não desapareceu com o petróleo. E o petróleo não está desaparecendo com o solar.

"A história da energia não é uma história de transições, mas de acumulações. Cada nova fonte adicionou-se às anteriores sem nunca as substituir verdadeiramente. O carvão continua a crescer. O petróleo continua a crescer. O gás continua a crescer. O que cresce também são as renováveis — sobre essa base fóssil imóvel."

Jean-Baptiste Fressoz — Sans transition: Une nouvelle histoire de l'énergie (2024)

Os dados de 232 países entre 2000 e 2023 confirmam essa tese com precisão que chega a ser perturbadora:

+65%
crescimento do carvão em consumo absoluto entre 2000 e 2023 — de 27.023 para 44.611 TWh
+26%
crescimento do petróleo — de 41.119 para 51.821 TWh (2000–2023)
+65%
crescimento do gás natural — de 23.556 para 38.993 TWh (2000–2023)
71,4%
do crescimento total de energia primária (2000–2023) foi suprido por combustíveis fósseis
Consumo Absoluto de Fontes Energéticas — Global (2000–2023)
TWh · Dados reais de 232 países · Fonte: Energy Institute via Our World in Data · Argumento de Fressoz: nenhuma fonte foi substituída — todas cresceram
▲ Argumento Fressoz: todas as fontes crescem em termos absolutos — adição, não transição

O gráfico mostra o que os números percentuais escondem: em 2023, o mundo queimou 64% mais carvão do que em 2000. Mais petróleo. Mais gás. E também mais eólica e solar — mas as renováveis foram adicionadas sobre um consumo fóssil que não parou de crescer. Fressoz chama isso de "simbiose energética": as renováveis não substituem os fósseis — são construídas com eles.

A simbiose que Fressoz identifica: Turbinas eólicas são feitas de aço (fundido com carvão e coque), com pás de fibra de vidro (derivado de petroquímica), assentadas em bases de cimento (produzido com carvão e gás), transportadas por caminhões a diesel, instaladas por guindastes movidos a diesel, conectadas à rede por cabos de cobre extraído com energia fóssil. Solar fotovoltaico exige silício ultrapuro (produção intensiva em energia elétrica ainda majoritariamente fóssil), quadros de alumínio (fundição com energia) e sistemas de armazenamento com minerais extraídos com diesel. As renováveis, por ora, são filhas da era fóssil.
Participação dos Combustíveis Fósseis na Energia Primária Global (2000–2023)
% da energia total — 23 anos de dados · Fonte: Energy Institute (dataset 232 países)
▲ Argumento Fressoz: participação fóssil caiu apenas 4,2 pp em 23 anos — de 83,3% para 79,1%

A participação dos combustíveis fósseis na energia primária global caiu de 83,3% em 2000 para 79,1% em 2023 — uma queda de 4,2 pontos percentuais em 23 anos. Ao ritmo atual, levaríamos cerca de 250 anos para zerar os fósseis apenas com essa tendência. Fressoz não está sendo pessimista — está sendo matemático.

2. A tese de Smil: a física e a escala não negociam com narrativas

Smil parte de uma perspectiva diferente, mas igualmente incômoda. Ele não nega que a transição está ocorrendo — ele diz que está ocorrendo lentamente demais para as metas climáticas assumidas, e que a maioria das pessoas não entende a escala física do que seria necessário para descarbonizar a economia global.

"A descarbonização de toda a economia global exigiria substituir, em 25 anos, o equivalente a toda a infraestrutura energética construída pela humanidade em 150 anos. Isso é como dizer que vamos construir em 25 anos tudo o que construímos desde 1850. Quem acredita nisso não entende física, escala ou história."

Vaclav Smil — How the World Really Works (2022)

O argumento central de Smil sobre escala pode ser verificado diretamente nos dados. Entre 2000 e 2023, o mundo precisou de 61.245 TWh adicionais de energia primária para sustentar seu crescimento econômico. Desse total, solar e eólica — as grandes esperanças da transição — forneceram:

De Onde Veio o Crescimento Energético Global? (2000–2023)
Decomposição dos +61.245 TWh adicionais por fonte · Fonte: Energy Institute (dataset 232 países)
▲ Argumento Smil: fósseis supriram 71,4% do crescimento; solar+eólica supriram apenas 15,5%
O problema de escala que Smil descreve: Solar cresceu 135.000% desde 2000 — de 3 TWh para 3.969 TWh. Em termos percentuais, é espetacular. Mas em termos absolutos, adicionou 3.966 TWh ao sistema em 23 anos. Os fósseis adicionaram 43.727 TWh no mesmo período — onze vezes mais. Celebrar o crescimento percentual das renováveis sem mencionar os números absolutos dos fósseis é como celebrar que um estudante melhorou sua nota de 0,1 para 5 enquanto o líder da turma foi de 8 para 9.

Os quatro materiais que Smil chama de intocáveis pelos fósseis

Smil tem um argumento específico que vai além da eletricidade: a economia global depende de quatro materiais fundamentais — aço, cimento, plástico e amônia — que são produzidos com combustíveis fósseis como matéria-prima ou como fonte de calor de alta temperatura, e que não têm substitutos renováveis em escala comercial. Juntos, eles produzem a infraestrutura de tudo o que existe — edifícios, estradas, fertilizantes que alimentam o mundo, embalagens.

Os 4 Pilares Materiais da Civilização — Dependência de Fósseis (2023)
Produção anual global e participação dos combustíveis fósseis como insumo · Fonte: Smil (2022) / IEA / USGS
▲ Argumento Smil: esses materiais não podem ser decarbonizados com as tecnologias atuais em escala global
A amônia como exemplo concreto: A amônia (NH₃) é o insumo base de todos os fertilizantes nitrogenados. O processo Haber-Bosch, descoberto em 1909, combina N₂ do ar com H₂ derivado do gás natural: N₂ + 3H₂ → 2NH₃. Esse processo consome ~1,8% de toda a energia global e produz ~170 milhões de toneladas de amônia/ano. Os fertilizantes derivados alimentam diretamente cerca de metade da população mundial. Substituir o H₂ de gás natural por H₂ verde (eletrólise com renováveis) exigiria ~6.000 TWh de eletricidade extra anualmente — mais do que toda a capacidade instalada de solar global em 2023.

3. O que os dados revelam sobre países que avançaram — e o que isso limita

Há um contraponto real ao pessimismo de Smil e Fressoz, e é honesto apresentá-lo: alguns países desenvolvidos demonstraram que é possível reduzir emissões absolutas enquanto mantêm crescimento econômico — o chamado desacoplamento (decoupling). Os dados confirmam essa tendência em certos contextos.

Desacoplamento Real: PIB per capita vs CO₂ per capita — Países Selecionados (2000–2023)
Variação % em relação a 2000 · Fonte: Energy Institute / World Bank (dataset 232 países)
▲ Contraponto: EUA, Alemanha e Reino Unido reduziram CO₂ absoluto — enquanto cresceram economicamente
O que o desacoplamento realmente representa: EUA: CO₂ caiu de 6.023 para 4.918 Mt (−18%) enquanto o PIB/capita cresceu +123%. Alemanha: CO₂ caiu de 899 para 594 Mt (−34%) com PIB/capita +129%. Reino Unido: CO₂ caiu de 569 para 308 Mt (−46%) com PIB/capita +76%. São vitórias reais — mas correspondem a ~10% da população mundial. China (que adicionou +8.528 Mt de CO₂), Índia (+2.076 Mt) e o resto das economias emergentes mais do que compensaram essas quedas.
China e Índia: Renováveis e Fósseis Crescem Simultaneamente (2000–2023)
TWh · Prova empírica do argumento de Fressoz: adição, não substituição · Fonte: Energy Institute (dataset 232 países)
▲ Argumento Fressoz confirmado: China adicionou 1.425 TWh de solar em 2023 E mais 4.841 TWh de carvão vs 2000

O gráfico da China e da Índia é o mais poderoso do argumento de Fressoz transformado em dado. A China é simultaneamente o maior instalador de energia solar e eólica do mundo — e o maior consumidor de carvão. Em 2023, adicionou mais de 1.424 TWh de solar (crescimento espetacular) e ao mesmo tempo consumia 25.181 TWh de carvão — 65% a mais do que em 2000. As renováveis não substituíram o carvão chinês — foram instaladas ao lado dele, para atender uma demanda que cresce mais rápido do que qualquer fonte individual consegue suprir.

4. Fressoz tem razão no diagnóstico histórico — Smil tem razão na física

A leitura mais honesta dos dados leva a uma conclusão que não agrada nem os otimistas nem os pessimistas absolutos: Fressoz e Smil estão ambos corretos, em planos distintos.

CO₂ Global — A Linha Que Nunca Dobrou (2000–2023)
Mt CO₂ totais · Fonte: Energy Institute / Global Carbon Project (dataset 232 países)
▲ O CO₂ global cresceu +50% em 23 anos de "transição energética" — de 24.723 para 37.003 Mt
O argumento mais forte de Smil em um número: De 2000 a 2023, solar e eólica cresceram de 89 TWh para 9.584 TWh — um crescimento extraordinário de 10.677%. No mesmo período, as emissões globais de CO₂ cresceram de 24.723 Mt para 37.003 Mt — alta de 50%. O crescimento das renováveis foi real, impressionante — e insuficiente para dobrar a trajetória das emissões. Smil chama isso de "o paradoxo da escala": cada vez mais rápido, sempre atrasado.

5. A comparação direta: onde cada autor acerta e onde cada um simplifica

Dimensão Smil Fressoz O que os dados dizem
Velocidade da transição Muito lenta para as metas Não há transição, só adição Fósseis: −4 pp em 23 anos. Ambos corretos
Crescimento das renováveis Real mas insuficiente em escala Complementar, não substituta Solar+Eólica: 15,5% do crescimento total. Smil mais preciso
CO₂ absoluto Continuará crescendo por décadas Crescerá enquanto o crescimento existir +50% em 23 anos. Ambos corretos
Países desenvolvidos Reduziram mas são minoria global Exportaram sua indústria pesada EUA −18%, UK −46% CO₂. Contraponto real
China e Índia Dominarão emissões por décadas Provam que adição é a lógica real China: carvão +65%, solar +∞. Ambos corretos
Materiais (aço, cimento) Impossível descarbonizar até 2050 Mencionado mas menos detalhado Processo Haber-Bosch: 1,8% energia global. Smil mais específico
Solução proposta Realismo, metas mais longas, eficiência Questionamento do crescimento como tal Ambos recusam soluções fáceis
Onde Fressoz é mais forte Diagnóstico histórico: a narrativa de "transição" é uma construção política recente. Os dados confirmam que não há precedente histórico de substituição real de nenhuma fonte energética.
Onde Smil é mais forte Análise de escala e física dos materiais. Os números absolutos de crescimento e a dependência fóssil da produção industrial são irrefutáveis e precisamente quantificados.
Onde ambos simplificam O desacoplamento real em países como Alemanha e Reino Unido mostra que a redução absoluta de emissões é possível — mas ambos tendem a minimizar esses casos ao argumentar para o nível global.
Solar + Eólica: A Curva Exponencial no Contexto da Energia Primária Total (2000–2023)
% da energia primária global · Fonte: Energy Institute (dataset 232 países) · O crescimento é real — mas parte de base quase zero

Este gráfico captura a tensão central do debate. A curva de solar e eólica é real, exponencial e impressionante — saiu de 0,08% para 5,6% da energia primária global em 23 anos. Smil diria: 5,6% em 23 anos não resolve 79% de participação fóssil em qualquer horizonte político realista. Fressoz diria: essa curva está crescendo sobre a base fóssil, não a substituindo.

Síntese: o que cada visão implica para a ação climática

Implicações de Smil

  • Metas de 2050 são fisicamente irrealistas como concebidas
  • Precisamos de décadas a mais e muita honestidade sobre custos
  • Eficiência energética é mais urgente do que novas fontes
  • A descarbonização industrial (aço, cimento, amônia) precisa de P&D massivo em tecnologias que ainda não existem em escala
  • Sem ação nos países emergentes (China, Índia), os esforços dos países ricos são simbólicos

Implicações de Fressoz

  • A narrativa de "transição" encobre a necessidade de questionar o crescimento
  • O capitalismo verde não é uma solução — é uma reformulação do problema
  • Cada nova capacidade renovável instalada é usada para crescer, não para substituir
  • A solução exige redução do consumo energético total, não apenas mudança de fonte
  • A história mostra que energia nunca é "transitada" — é acumulada. Precisamos de uma ruptura sem precedentes históricos
Fontes e Referências