Há uma narrativa dominante sobre a transição energética que vai mais ou menos assim: solar e eólica estão crescendo exponencialmente, os custos despencaram, os veículos elétricos proliferam, e em 2050 teremos um mundo descarbonizado. É uma narrativa sedutora, sustentada por dados reais de crescimento tecnológico impressionante — e profundamente incompleta.
Dois intelectuais de peso desafiam essa narrativa com rigor e dados, vindo de perspectivas diferentes. Vaclav Smil, cientista de sistemas energéticos, e Jean-Baptiste Fressoz, historiador da energia, chegam a conclusões que incomodam tanto os otimistas tecnológicos quanto os defensores do status quo. Este artigo apresenta seus argumentos, os confronta e os testa com dados reais de 232 países entre 2000 e 2023.
Vaclav Smil
- Mais de 40 livros sobre energia, alimentação e ambiente
- Bill Gates: "o autor que mais admiro"
- Obra-chave: How the World Really Works (2022)
- Argumento central: escala e velocidade importam mais do que %, e a física não negocia prazos políticos
- Fósseis ainda sustentam os 4 pilares materiais do mundo: aço, cimento, plástico e amônia
Jean-Baptiste Fressoz
- Especialista em história ambiental e das tecnologias
- Obra-chave: Sans transition (2024)
- Argumento central: não houve transições energéticas na história — houve acumulações. O conceito de "transição" é político, não científico
- Renováveis são complementares aos fósseis, não substitutas
- O "capitalismo verde" não questiona o crescimento — só troca a fonte de energia que o alimenta
1. A tese de Fressoz: não existem transições — existem adições
O argumento mais provocador de Fressoz em Sans transition é histórico: olhando para o registro empírico dos últimos 200 anos, nunca houve uma substituição de uma fonte energética por outra. O que houve foi sempre a adição de novas fontes ao repertório existente, sem que as anteriores desaparecessem. A lenha não desapareceu com o carvão. O carvão não desapareceu com o petróleo. E o petróleo não está desaparecendo com o solar.
"A história da energia não é uma história de transições, mas de acumulações. Cada nova fonte adicionou-se às anteriores sem nunca as substituir verdadeiramente. O carvão continua a crescer. O petróleo continua a crescer. O gás continua a crescer. O que cresce também são as renováveis — sobre essa base fóssil imóvel."
Os dados de 232 países entre 2000 e 2023 confirmam essa tese com precisão que chega a ser perturbadora:
O gráfico mostra o que os números percentuais escondem: em 2023, o mundo queimou 64% mais carvão do que em 2000. Mais petróleo. Mais gás. E também mais eólica e solar — mas as renováveis foram adicionadas sobre um consumo fóssil que não parou de crescer. Fressoz chama isso de "simbiose energética": as renováveis não substituem os fósseis — são construídas com eles.
A participação dos combustíveis fósseis na energia primária global caiu de 83,3% em 2000 para 79,1% em 2023 — uma queda de 4,2 pontos percentuais em 23 anos. Ao ritmo atual, levaríamos cerca de 250 anos para zerar os fósseis apenas com essa tendência. Fressoz não está sendo pessimista — está sendo matemático.
2. A tese de Smil: a física e a escala não negociam com narrativas
Smil parte de uma perspectiva diferente, mas igualmente incômoda. Ele não nega que a transição está ocorrendo — ele diz que está ocorrendo lentamente demais para as metas climáticas assumidas, e que a maioria das pessoas não entende a escala física do que seria necessário para descarbonizar a economia global.
"A descarbonização de toda a economia global exigiria substituir, em 25 anos, o equivalente a toda a infraestrutura energética construída pela humanidade em 150 anos. Isso é como dizer que vamos construir em 25 anos tudo o que construímos desde 1850. Quem acredita nisso não entende física, escala ou história."
O argumento central de Smil sobre escala pode ser verificado diretamente nos dados. Entre 2000 e 2023, o mundo precisou de 61.245 TWh adicionais de energia primária para sustentar seu crescimento econômico. Desse total, solar e eólica — as grandes esperanças da transição — forneceram:
Os quatro materiais que Smil chama de intocáveis pelos fósseis
Smil tem um argumento específico que vai além da eletricidade: a economia global depende de quatro materiais fundamentais — aço, cimento, plástico e amônia — que são produzidos com combustíveis fósseis como matéria-prima ou como fonte de calor de alta temperatura, e que não têm substitutos renováveis em escala comercial. Juntos, eles produzem a infraestrutura de tudo o que existe — edifícios, estradas, fertilizantes que alimentam o mundo, embalagens.
3. O que os dados revelam sobre países que avançaram — e o que isso limita
Há um contraponto real ao pessimismo de Smil e Fressoz, e é honesto apresentá-lo: alguns países desenvolvidos demonstraram que é possível reduzir emissões absolutas enquanto mantêm crescimento econômico — o chamado desacoplamento (decoupling). Os dados confirmam essa tendência em certos contextos.
O gráfico da China e da Índia é o mais poderoso do argumento de Fressoz transformado em dado. A China é simultaneamente o maior instalador de energia solar e eólica do mundo — e o maior consumidor de carvão. Em 2023, adicionou mais de 1.424 TWh de solar (crescimento espetacular) e ao mesmo tempo consumia 25.181 TWh de carvão — 65% a mais do que em 2000. As renováveis não substituíram o carvão chinês — foram instaladas ao lado dele, para atender uma demanda que cresce mais rápido do que qualquer fonte individual consegue suprir.
4. Fressoz tem razão no diagnóstico histórico — Smil tem razão na física
A leitura mais honesta dos dados leva a uma conclusão que não agrada nem os otimistas nem os pessimistas absolutos: Fressoz e Smil estão ambos corretos, em planos distintos.
5. A comparação direta: onde cada autor acerta e onde cada um simplifica
| Dimensão | Smil | Fressoz | O que os dados dizem |
|---|---|---|---|
| Velocidade da transição | Muito lenta para as metas | Não há transição, só adição | Fósseis: −4 pp em 23 anos. Ambos corretos |
| Crescimento das renováveis | Real mas insuficiente em escala | Complementar, não substituta | Solar+Eólica: 15,5% do crescimento total. Smil mais preciso |
| CO₂ absoluto | Continuará crescendo por décadas | Crescerá enquanto o crescimento existir | +50% em 23 anos. Ambos corretos |
| Países desenvolvidos | Reduziram mas são minoria global | Exportaram sua indústria pesada | EUA −18%, UK −46% CO₂. Contraponto real |
| China e Índia | Dominarão emissões por décadas | Provam que adição é a lógica real | China: carvão +65%, solar +∞. Ambos corretos |
| Materiais (aço, cimento) | Impossível descarbonizar até 2050 | Mencionado mas menos detalhado | Processo Haber-Bosch: 1,8% energia global. Smil mais específico |
| Solução proposta | Realismo, metas mais longas, eficiência | Questionamento do crescimento como tal | Ambos recusam soluções fáceis |
| Onde Fressoz é mais forte | Diagnóstico histórico: a narrativa de "transição" é uma construção política recente. Os dados confirmam que não há precedente histórico de substituição real de nenhuma fonte energética. | ||
| Onde Smil é mais forte | Análise de escala e física dos materiais. Os números absolutos de crescimento e a dependência fóssil da produção industrial são irrefutáveis e precisamente quantificados. | ||
| Onde ambos simplificam | O desacoplamento real em países como Alemanha e Reino Unido mostra que a redução absoluta de emissões é possível — mas ambos tendem a minimizar esses casos ao argumentar para o nível global. | ||
Este gráfico captura a tensão central do debate. A curva de solar e eólica é real, exponencial e impressionante — saiu de 0,08% para 5,6% da energia primária global em 23 anos. Smil diria: 5,6% em 23 anos não resolve 79% de participação fóssil em qualquer horizonte político realista. Fressoz diria: essa curva está crescendo sobre a base fóssil, não a substituindo.
Síntese: o que cada visão implica para a ação climática
Implicações de Smil
- Metas de 2050 são fisicamente irrealistas como concebidas
- Precisamos de décadas a mais e muita honestidade sobre custos
- Eficiência energética é mais urgente do que novas fontes
- A descarbonização industrial (aço, cimento, amônia) precisa de P&D massivo em tecnologias que ainda não existem em escala
- Sem ação nos países emergentes (China, Índia), os esforços dos países ricos são simbólicos
Implicações de Fressoz
- A narrativa de "transição" encobre a necessidade de questionar o crescimento
- O capitalismo verde não é uma solução — é uma reformulação do problema
- Cada nova capacidade renovável instalada é usada para crescer, não para substituir
- A solução exige redução do consumo energético total, não apenas mudança de fonte
- A história mostra que energia nunca é "transitada" — é acumulada. Precisamos de uma ruptura sem precedentes históricos
- Smil, Vaclav — How the World Really Works: The Science Behind How We Got Here and Where We're Going. Viking, 2022.
- Smil, Vaclav — Energy and Civilization: A History. MIT Press, 2017.
- Smil, Vaclav — Numbers Don't Lie: 71 Things You Need to Know About the World. Viking, 2020.
- Fressoz, Jean-Baptiste — Sans transition: Une nouvelle histoire de l'énergie. Seuil, 2024.
- Energy Institute — Statistical Review of World Energy 2024. Via Our World in Data. Dataset de 232 países, 2000–2023. energyinst.org
- Global Carbon Project — CO₂ Emissions Dataset 2024. globalcarbonproject.org
- IEA — World Energy Outlook 2024. Net Zero by 2050 scenarios. iea.org
- IEA — The Role of Critical Materials in Clean Energy Transitions (2021). Dependências materiais das renováveis.
- IPCC — AR6, WG III (2022). Mitigação das mudanças climáticas — capítulos de sistemas energéticos e industria.