Este artigo analisa a matriz elétrica brasileira com base nos dados do BEN 2025 — Balanço Energético Nacional, publicação oficial da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) com ano base 2024. São apresentados os dados de geração por fonte, a evolução histórica da renovabilidade, o papel de cada fonte — hidráulica, eólica, solar, biomassa, gás natural, nuclear e outras — e o que essa matriz significa em comparação com o mundo.

Neste artigo

  1. A matriz elétrica em números — 2024
  2. Cada fonte em detalhe
  3. A evolução histórica — 20 anos de renovabilidade
  4. O boom solar e eólico
  5. O papel das termelétricas — flexibilidade com custo
  6. A micro e minigeração distribuída
  7. O Brasil no contexto global
  8. Conclusão

1. A matriz elétrica em números — 2024

Em 2024, o Brasil gerou 751,3 TWh de eletricidade — um crescimento de 6,1% em relação a 2023. A Oferta Interna de Energia Elétrica (OIEE), que inclui geração nacional e o saldo de importações, chegou a 762,9 TWh, crescimento de 5,5%.

O consumo final de eletricidade acompanhou esse ritmo: 650,4 TWh, também +5,5% em relação ao ano anterior. Os setores que mais contribuíram para esse aumento foram o residencial (+8%, puxado por eletrodomésticos e climatização), o comercial (+7,4%) e o industrial (+4,1%).

88,2%
Renováveis na
geração elétrica (2024)
751 TWh
Geração elétrica
total (2024)
+6,1%
Crescimento da geração
vs 2023
59,9 kg
CO₂ emitido por
MWh gerado (eq)
+39,6%
Crescimento da geração
solar em 2024
23,7%
Solar + eólica na
geração total
Geração elétrica por fonte — Brasil 2024 (TWh)
Fonte: BEN 2025 — EPE / Ministério de Minas e Energia · Ano base 2024

A hidráulica ainda lidera com 56,1% da geração, mas solar e eólica juntas já somam 23,7% — mais que o dobro da participação de 5 anos atrás.

Hidro 56,1%
Eólica 14,3%
Solar 9,4%
Biomassa 8,2%
Gás 6,4%
Nuclear 2,1%
Outros 3,5%

Participação percentual de cada fonte na geração total de 751,3 TWh · Fonte: BEN 2025 — EPE

2. Cada fonte em detalhe

A tabela abaixo traz a geração elétrica por fonte em GWh, comparando 2023 e 2024, com as variações percentuais segundo o BEN 2025:

Fonte 2023 (GWh) 2024 (GWh) % do total Δ% 24/23
Hidrelétrica425.996421.79956,1%−1,0%
Eólica95.801107.65414,3%+12,4%
Solar Fotovoltaica50.63370.6659,4%+39,6%
Biomassa54.21058.0277,7%+7,0%
Subtotal Renováveis626.640658.14587,6%+5,0%
Gás Natural38.58947.7926,4%+23,9%
Nuclear (Angra I e II)14.50415.7672,1%+8,7%
Carvão Vapor8.77010.2471,4%+16,8%
Derivados de Petróleo5.6865.9600,8%+4,8%
Outras13.93213.4251,8%−3,6%
GERAÇÃO TOTAL708.119751.335100%+6,1%

¹ Biomassa inclui lenha, bagaço de cana, biodiesel e licor preto. Derivados de petróleo incluem óleo diesel e óleo combustível. Fonte: BEN 2025 — EPE.

Agora, o que cada uma dessas fontes representa na prática:

💧
Hidráulica
421,8 TWh
A base histórica da matriz elétrica brasileira. Opera há décadas e tem capacidade instalada de 109,9 GW — estável, sem crescimento em 2024. A geração caiu 1% por condições hidrológicas desfavoráveis em algumas regiões, mas permanece amplamente dominante. Inclui a importação de Itaipu.
Renovável · 56,1%
🌬️
Eólica
107,7 TWh
Cresceu 12,4% em 2024, com capacidade instalada de 29.550 MW (+3%). Concentrada no Nordeste, onde o regime de ventos é um dos melhores do mundo. Complementa bem a hidráulica porque os ventos são mais fortes no período seco, quando os reservatórios estão baixos.
Renovável · 14,3%
☀️
Solar Fotovoltaica
70,7 TWh
A maior expansão de 2024: +39,6% de geração e +28,1% de capacidade instalada, chegando a 48.468 MW. Inclui usinas centralizadas e micro/minigeração (MMGD). A solar já responde por 5,6% da geração total via MMGD — painéis em telhados de residências e empresas.
Renovável · 9,4%
🌿
Biomassa
58,0 TWh
A "bioeletricidade" vem principalmente do bagaço de cana (60,9%) e do licor preto — resíduo da produção de celulose (28,1%). Atingiu recorde histórico em 2024: 61.433 GWh (incluindo autoprodução). Cresce 2,3% ao ano em média na última década.
Renovável · 7,7%
🔥
Gás Natural
47,8 TWh
Cresceu 23,9% em 2024 — o maior aumento percentual entre todas as fontes. Funciona como válvula de ajuste: quando as hidrelétricas produzem menos (por seca), as termelétricas a gás entram para garantir o abastecimento. Esse papel de "backup" é essencial à segurança do sistema.
Flexível · 6,4%
⚛️
Nuclear
15,8 TWh
Angra I e Angra II, no Rio de Janeiro, com capacidade instalada de 1.990 MW — estável há anos. Geração cresceu 8,7% em 2024, reflexo de melhor disponibilidade das usinas. Angra III está em construção há décadas e ainda sem previsão de conclusão. Opera como base contínua 24h.
Não renovável · 2,1%

3. A evolução histórica — 20 anos de renovabilidade

Uma das características mais notáveis da matriz elétrica brasileira é que ela nunca ficou abaixo de 70% de renovável desde 2004. Em comparação, a média mundial foi de apenas 29,9% em 2022 e os países da OCDE alcançaram 34%.

Renovabilidade da matriz elétrica brasileira — 2004 a 2024
% de renováveis na OIEE · Fonte: BEN 2025 — EPE

Os vales em 2012–2015 refletem secas severas que reduziram a geração hidráulica, forçando o acionamento de termelétricas. A recuperação pós-2016 foi sustentada pela expansão de solar e eólica.

O ponto mais crítico da série foi 2014–2015, quando o Brasil enfrentou uma das piores crises hídricas da história. A renovabilidade caiu para 74–75% porque foi necessário acionar intensivamente as termelétricas a gás, carvão e óleo. A conta de luz subiu, o racionamento quase aconteceu, e a economia sentiu o impacto.

Mas esse episódio revelou algo importante: a dependência quase exclusiva da hidráulica tornava o sistema vulnerável ao clima. A resposta estrutural foi acelerar os leilões de energia eólica e solar — que nos anos seguintes transformaram o perfil da matriz.

Eficiência das centrais elétricas: em 2024, a eficiência média das centrais elétricas brasileiras foi de 77,8% — muito acima dos anos de crise (66% em 2014). Isso porque hidráulica, eólica e solar são integralmente convertidas em eletricidade por convenção — não têm perdas térmicas como as usinas a carvão e gás, que desperdiçam energia como calor.

4. O boom solar e eólico

A transformação mais rápida e profunda da matriz elétrica brasileira nas últimas décadas aconteceu na geração solar e eólica. Em 2010, as duas fontes juntas representavam menos de 1% da geração. Em 2024, chegaram a 23,7% — mudança que em outros países levou gerações.

Crescimento da geração solar e eólica — 2007 a 2024 (GWh)
Fonte: BEN 2025 — EPE · escala em GWh

A solar fotovoltaica saiu de praticamente zero em 2015 para 70,7 TWh em 2024. A eólica cresceu de 12,4 TWh em 2010 para 107,7 TWh em 2024 — um aumento de mais de 8 vezes.

A velocidade do crescimento solar é especialmente impressionante. A capacidade instalada de solar saiu de 37.843 MW em 2023 para 48.468 MW em 2024 — expansão de 28,1% em apenas um ano. Para contexto: essa adição de aproximadamente 10.600 MW em um único ano é maior que toda a capacidade solar instalada no Brasil antes de 2020.

Uma parte significativa disso vem da micro e minigeração distribuída (MMGD) — painéis solares instalados em telhados de residências, comércios e pequenas indústrias. A MMGD gerou 42.268 GWh em 2024, crescimento de 36,6% em relação a 2023, e representa 5,6% de toda a geração elétrica do país. A energia solar fotovoltaica respondeu por 97% dessa geração distribuída.

Por que o Brasil tem tanto vento e sol? O Nordeste brasileiro tem um dos regimes de vento mais consistentes do mundo — ventos alísios que sopram quase o ano inteiro, com fator de capacidade médio de 40–50% (comparado a 25–30% na Europa). E a irradiância solar no Brasil Central e Nordeste é comparável à do deserto do Saara. Esses recursos naturais, combinados com a queda de custo dos painéis solares (−90% em 10 anos), tornaram o Brasil um dos mercados mais competitivos do mundo para energias renováveis.

5. O papel das termelétricas — flexibilidade com custo

Em 2024, a geração termelétrica total cresceu 11,4%, chegando a 151,2 TWh — participação de 20,1% na geração total. Esse crescimento pode parecer contraditório em um país com 88% de renovável, mas tem uma lógica de sistema: as termelétricas são o mecanismo de segurança.

Geração termelétrica por fonte — participação 2023 vs 2024
% de cada fonte na geração termelétrica total · Fonte: BEN 2025 — EPE

A bioeletricidade (40,6% das térmicas) é renovável — queima resíduos de cana e celulose. O gás natural (31,6%) é o principal combustível fóssil usado para regular o sistema.

Um detalhe importante: 40,6% da geração termelétrica em 2024 veio de biomassa — bagaço de cana, licor preto, lenha. Isso significa que mesmo dentro das "termelétricas", uma parcela relevante é de origem renovável. O gás natural representa 31,6% das térmicas — é o principal combustível fóssil do sistema elétrico brasileiro.

O carvão mineral cresceu 16,8% em 2024, chegando a 10.247 GWh. Geograficamente concentrado em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o carvão nacional é uma questão política e regional tanto quanto energética — representa empregos em municípios que dependem da mineração.

O dilema hídrico-térmico: quando chove bem, os reservatórios enchem, a geração hidráulica sobe e as termelétricas ficam paradas. Quando há seca, o oposto acontece — e o custo da energia sobe, pois termelétricas a gás e carvão são mais caras que hidrelétricas. A expansão de solar e eólica reduz essa dependência do regime de chuvas, tornando o sistema mais resiliente ao clima — exatamente o que aconteceu de 2016 em diante.

6. A micro e minigeração distribuída — energia no telhado

Um dos fenômenos mais significativos da última década na energia elétrica brasileira é a explosão da geração distribuída. Regulamentada pela Lei 14.300/2022 e impulsionada pela queda de preço dos painéis solares, a MMGD transformou consumidores em produtores de energia.

Evolução da geração MMGD — 2015 a 2024 (GWh)
Micro e Minigeração Distribuída · Fonte: BEN 2025 — EPE

A MMGD saiu de praticamente zero em 2015 para 42.268 GWh em 2024 — uma curva de crescimento exponencial que reflete a viabilidade econômica dos painéis solares residenciais no Brasil.

Em 2024, a capacidade instalada de MMGD solar atingiu 35.892 MW — mais que a capacidade instalada total de eólica onshore há apenas 4 anos. A distribuição geográfica é concentrada no Centro-Sul: Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso lideram. Estados com alta irradiância solar e forte presença de agronegócio adotaram o solar de forma especialmente intensa.

Impacto na conta de luz: quem instala painéis solares pode injetar o excedente na rede e receber créditos de energia (sistema de compensação). Isso reduziu a conta elétrica de milhões de consumidores e criou uma nova dinâmica no mercado: a distribuidora de energia deixou de ser o único fornecedor e passou a competir com o próprio telhado do cliente.

7. O Brasil no contexto global

Para dimensionar a singularidade da matriz elétrica brasileira, a comparação internacional é fundamental. O Brasil emite 59,9 kg de CO₂ equivalente por MWh gerado. Para comparação:

Emissões de CO₂ na geração elétrica — comparação internacional (2022)
kg CO₂ equivalente por MWh gerado · Fonte: IEA 2022 e EPE 2024

O setor elétrico brasileiro emite apenas 9% do que o setor elétrico chinês emite por MWh, 17% do americano e 23% do europeu da OCDE — reflexo direto da alta participação de renováveis.

Esses números têm uma implicação prática muito concreta: eletrificar o transporte no Brasil tem um impacto climático muito maior do que em qualquer outro grande país. Um carro elétrico que roda no Brasil usa eletricidade com intensidade de carbono de ~60 kg/MWh. O mesmo carro na Alemanha (onde a matriz é ~38% renovável) usa eletricidade com ~350 kg/MWh — quase 6 vezes mais carbono por km rodado.

Isso significa que a estratégia climática do Brasil deveria priorizar a eletrificação do transporte — que consome 33% de toda a energia final do país, quase tudo em petróleo. Cada ônibus elétrico em São Paulo, cada caminhão elétrico no agronegócio, representa uma redução de emissões muito mais eficiente aqui do que em qualquer economia com matriz mais suja.

Conclusão: 3 pontos para fixar

Referências Bibliográficas