Neste artigo
1. A matriz elétrica em números — 2024
Em 2024, o Brasil gerou 751,3 TWh de eletricidade — um crescimento de 6,1% em relação a 2023. A Oferta Interna de Energia Elétrica (OIEE), que inclui geração nacional e o saldo de importações, chegou a 762,9 TWh, crescimento de 5,5%.
O consumo final de eletricidade acompanhou esse ritmo: 650,4 TWh, também +5,5% em relação ao ano anterior. Os setores que mais contribuíram para esse aumento foram o residencial (+8%, puxado por eletrodomésticos e climatização), o comercial (+7,4%) e o industrial (+4,1%).
geração elétrica (2024)
total (2024)
vs 2023
MWh gerado (eq)
solar em 2024
geração total
A hidráulica ainda lidera com 56,1% da geração, mas solar e eólica juntas já somam 23,7% — mais que o dobro da participação de 5 anos atrás.
Participação percentual de cada fonte na geração total de 751,3 TWh · Fonte: BEN 2025 — EPE
2. Cada fonte em detalhe
A tabela abaixo traz a geração elétrica por fonte em GWh, comparando 2023 e 2024, com as variações percentuais segundo o BEN 2025:
| Fonte | 2023 (GWh) | 2024 (GWh) | % do total | Δ% 24/23 |
|---|---|---|---|---|
| Hidrelétrica | 425.996 | 421.799 | 56,1% | −1,0% |
| Eólica | 95.801 | 107.654 | 14,3% | +12,4% |
| Solar Fotovoltaica | 50.633 | 70.665 | 9,4% | +39,6% |
| Biomassa | 54.210 | 58.027 | 7,7% | +7,0% |
| Subtotal Renováveis | 626.640 | 658.145 | 87,6% | +5,0% |
| Gás Natural | 38.589 | 47.792 | 6,4% | +23,9% |
| Nuclear (Angra I e II) | 14.504 | 15.767 | 2,1% | +8,7% |
| Carvão Vapor | 8.770 | 10.247 | 1,4% | +16,8% |
| Derivados de Petróleo | 5.686 | 5.960 | 0,8% | +4,8% |
| Outras | 13.932 | 13.425 | 1,8% | −3,6% |
| GERAÇÃO TOTAL | 708.119 | 751.335 | 100% | +6,1% |
¹ Biomassa inclui lenha, bagaço de cana, biodiesel e licor preto. Derivados de petróleo incluem óleo diesel e óleo combustível. Fonte: BEN 2025 — EPE.
Agora, o que cada uma dessas fontes representa na prática:
3. A evolução histórica — 20 anos de renovabilidade
Uma das características mais notáveis da matriz elétrica brasileira é que ela nunca ficou abaixo de 70% de renovável desde 2004. Em comparação, a média mundial foi de apenas 29,9% em 2022 e os países da OCDE alcançaram 34%.
Os vales em 2012–2015 refletem secas severas que reduziram a geração hidráulica, forçando o acionamento de termelétricas. A recuperação pós-2016 foi sustentada pela expansão de solar e eólica.
O ponto mais crítico da série foi 2014–2015, quando o Brasil enfrentou uma das piores crises hídricas da história. A renovabilidade caiu para 74–75% porque foi necessário acionar intensivamente as termelétricas a gás, carvão e óleo. A conta de luz subiu, o racionamento quase aconteceu, e a economia sentiu o impacto.
Mas esse episódio revelou algo importante: a dependência quase exclusiva da hidráulica tornava o sistema vulnerável ao clima. A resposta estrutural foi acelerar os leilões de energia eólica e solar — que nos anos seguintes transformaram o perfil da matriz.
4. O boom solar e eólico
A transformação mais rápida e profunda da matriz elétrica brasileira nas últimas décadas aconteceu na geração solar e eólica. Em 2010, as duas fontes juntas representavam menos de 1% da geração. Em 2024, chegaram a 23,7% — mudança que em outros países levou gerações.
A solar fotovoltaica saiu de praticamente zero em 2015 para 70,7 TWh em 2024. A eólica cresceu de 12,4 TWh em 2010 para 107,7 TWh em 2024 — um aumento de mais de 8 vezes.
A velocidade do crescimento solar é especialmente impressionante. A capacidade instalada de solar saiu de 37.843 MW em 2023 para 48.468 MW em 2024 — expansão de 28,1% em apenas um ano. Para contexto: essa adição de aproximadamente 10.600 MW em um único ano é maior que toda a capacidade solar instalada no Brasil antes de 2020.
Uma parte significativa disso vem da micro e minigeração distribuída (MMGD) — painéis solares instalados em telhados de residências, comércios e pequenas indústrias. A MMGD gerou 42.268 GWh em 2024, crescimento de 36,6% em relação a 2023, e representa 5,6% de toda a geração elétrica do país. A energia solar fotovoltaica respondeu por 97% dessa geração distribuída.
5. O papel das termelétricas — flexibilidade com custo
Em 2024, a geração termelétrica total cresceu 11,4%, chegando a 151,2 TWh — participação de 20,1% na geração total. Esse crescimento pode parecer contraditório em um país com 88% de renovável, mas tem uma lógica de sistema: as termelétricas são o mecanismo de segurança.
A bioeletricidade (40,6% das térmicas) é renovável — queima resíduos de cana e celulose. O gás natural (31,6%) é o principal combustível fóssil usado para regular o sistema.
Um detalhe importante: 40,6% da geração termelétrica em 2024 veio de biomassa — bagaço de cana, licor preto, lenha. Isso significa que mesmo dentro das "termelétricas", uma parcela relevante é de origem renovável. O gás natural representa 31,6% das térmicas — é o principal combustível fóssil do sistema elétrico brasileiro.
O carvão mineral cresceu 16,8% em 2024, chegando a 10.247 GWh. Geograficamente concentrado em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o carvão nacional é uma questão política e regional tanto quanto energética — representa empregos em municípios que dependem da mineração.
6. A micro e minigeração distribuída — energia no telhado
Um dos fenômenos mais significativos da última década na energia elétrica brasileira é a explosão da geração distribuída. Regulamentada pela Lei 14.300/2022 e impulsionada pela queda de preço dos painéis solares, a MMGD transformou consumidores em produtores de energia.
A MMGD saiu de praticamente zero em 2015 para 42.268 GWh em 2024 — uma curva de crescimento exponencial que reflete a viabilidade econômica dos painéis solares residenciais no Brasil.
Em 2024, a capacidade instalada de MMGD solar atingiu 35.892 MW — mais que a capacidade instalada total de eólica onshore há apenas 4 anos. A distribuição geográfica é concentrada no Centro-Sul: Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso lideram. Estados com alta irradiância solar e forte presença de agronegócio adotaram o solar de forma especialmente intensa.
7. O Brasil no contexto global
Para dimensionar a singularidade da matriz elétrica brasileira, a comparação internacional é fundamental. O Brasil emite 59,9 kg de CO₂ equivalente por MWh gerado. Para comparação:
O setor elétrico brasileiro emite apenas 9% do que o setor elétrico chinês emite por MWh, 17% do americano e 23% do europeu da OCDE — reflexo direto da alta participação de renováveis.
Esses números têm uma implicação prática muito concreta: eletrificar o transporte no Brasil tem um impacto climático muito maior do que em qualquer outro grande país. Um carro elétrico que roda no Brasil usa eletricidade com intensidade de carbono de ~60 kg/MWh. O mesmo carro na Alemanha (onde a matriz é ~38% renovável) usa eletricidade com ~350 kg/MWh — quase 6 vezes mais carbono por km rodado.
Isso significa que a estratégia climática do Brasil deveria priorizar a eletrificação do transporte — que consome 33% de toda a energia final do país, quase tudo em petróleo. Cada ônibus elétrico em São Paulo, cada caminhão elétrico no agronegócio, representa uma redução de emissões muito mais eficiente aqui do que em qualquer economia com matriz mais suja.
Conclusão: 3 pontos para fixar
- 88% renovável é excepcional — e foi conquistado ao longo de décadas, não de uma vez. A matriz elétrica brasileira é uma combinação única de hidráulica histórica (construída nas décadas de 1960–1990), biomassa (impulsionada pelo Proálcool nos anos 1970) e a expansão recente e acelerada de solar e eólica (2010–2024). Solar e eólica juntas saíram de 1% para 23,7% em menos de 15 anos — a transformação mais rápida da história energética brasileira.
- A solar é a nova protagonista. Com 48.468 MW instalados e crescimento de 28,1% na capacidade e 39,6% na geração em apenas um ano, a solar fotovoltaica já representa 9,4% da geração total. A MMGD — painéis nos telhados — gerou 42.268 GWh, ou 5,6% do total. Se a curva atual se mantiver, a solar pode superar a eólica em geração até 2027.
- O setor elétrico é limpo — o desafio está fora dele. Com 59,9 kg CO₂/MWh, o setor elétrico brasileiro é um dos mais limpos do mundo. O gargalo da descarbonização no Brasil não é a geração elétrica — é o transporte (que consome 33% de toda a energia final em petróleo) e a indústria pesada. A estratégia mais eficaz disponível é eletrificar esses setores sobre uma matriz já essencialmente renovável.
Referências Bibliográficas
- EPE — Empresa de Pesquisa Energética — Balanço Energético Nacional 2025: Relatório Síntese, Ano Base 2024. Ministério de Minas e Energia. Rio de Janeiro, maio de 2025. epe.gov.br
- ANEEL — Agência Nacional de Energia Elétrica — Dados de capacidade instalada por fonte no Sistema Interligado Nacional (SIN), 2024. aneel.gov.br
- ONS — Operador Nacional do Sistema Elétrico — Dados operacionais de geração e despacho elétrico, 2024. ons.org.br
- ABSOLAR — Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica — Panorama da energia solar fotovoltaica no Brasil, 2024. absolar.org.br
- ABEEólica — Associação Brasileira de Energia Eólica — Dados de capacidade instalada e geração eólica no Brasil, 2024. abeeolica.org.br
- IEA — International Energy Agency — World Energy Balances (2024). Dados de emissões por MWh gerado por país (2022). iea.org
- Our World in Data (OWID) — Energy Mix; Electricity Generation. Hannah Ritchie, Pablo Rosado, Max Roser (2024). ourworldindata.org/energy
- Prof. Edson Mosman — mosmanLAB · São Paulo, março de 2026. mosmanlab.com.br