Se você pudesse escolher a fonte mais poluente, mais emissora de partículas finas, mais responsável por doenças respiratórias, mais intensiva em CO₂ por unidade de energia gerada — e perguntasse se ela domina a geração elétrica global em 2023 — a resposta intuitiva seria não. Mas a resposta correta é sim.

O carvão responde por 35,4% de toda a eletricidade gerada no mundo. Em 2023, gerou 10.360 TWh — mais do que toda a geração somada de hidrelétrica, solar, eólica e nuclear juntas. E em termos absolutos, a geração a carvão em 2023 foi maior do que em 2000. Como isso é possível em um mundo que conhece as consequências climáticas e tem alternativas mais baratas disponíveis? A resposta revela a complexidade real da transição energética.

35,4%
participação do carvão na geração elétrica global — 2023
820–1.050
gCO₂/kWh emitidos pela geração a carvão — o maior de todos
+78%
crescimento da geração a carvão entre 2000 e 2023 em termos absolutos
China+Índia
respondem por 67% de toda a geração a carvão global em 2022

A física do carvão — por que ele emite tanto

O carvão é basicamente carbono. Quando queimado, a reação é fundamentalmente:

C + O₂ → CO₂  ·  ΔH = −393 kJ/mol  ·  ~820–1.050 gCO₂/kWh elétrico

Compare com o gás natural (CH₄ + 2O₂ → CO₂ + 2H₂O): o gás libera 490 gCO₂/kWh elétrico, pois parte da energia vem da oxidação do hidrogênio em vapor d'água — que não gera CO₂. No carvão, quase tudo é carbono. A eficiência termodinâmica das termelétricas a carvão (38–42%) também é menor do que a das turbinas a gás de ciclo combinado (55–62%), agravando ainda mais o CO₂ por kWh gerado.

Comparação direta de emissões por kWh gerado (ciclo de vida): Carvão: 820–1.050 g · Petróleo: 650–750 g · Gás natural: 490 g · Nuclear: 12 g · Hidrelétrica: 4–30 g · Eólica: 7–15 g · Solar FV: 20–50 g. O carvão emite 70–100 vezes mais CO₂ por kWh do que nuclear, eólica e hidrelétrica. Em nenhuma outra dimensão técnica o carvão tem vantagem sobre seus concorrentes.
Emissões de CO₂ por Fonte de Geração Elétrica (gCO₂eq/kWh — ciclo de vida)
Inclui extração, transporte, construção e operação · Fonte: IPCC AR6 (2022)

O crescimento absoluto do carvão — os dados reais

Geração Elétrica a Carvão Global — Total e por Região (2000–2023)
TWh · Dados reais de 232 países · Fonte: Energy Institute via Our World in Data

O gráfico revela o núcleo do paradoxo: enquanto EUA e Europa reduziram sistematicamente sua geração a carvão, China e Índia mais do que compensaram essas quedas com crescimento explosivo. Em 2000, a China gerava 1.060 TWh de carvão. Em 2022, gerou 5.415 TWh — crescimento de 410%. A Índia foi de 390 TWh para 1.344 TWh. Esses dois países somados respondem por 67% de toda a geração a carvão global.

A aritmética brutal: Para cada usina a carvão fechada na Alemanha (que gerava ~10 TWh/ano), a China abriu o equivalente a mais de 50 usinas similares nos últimos 20 anos. O carvão alemão caiu de 296 para 180 TWh (−116 TWh). O carvão chinês cresceu de 1.060 para 5.415 TWh (+4.355 TWh). A soma líquida global é de aumento.

Por que o carvão ainda domina — as 5 razões

🏭 1. Infraestrutura existente

Existem mais de 8.000 usinas a carvão operando no mundo, a maioria com vida útil de 30–40 anos e custos de capital já amortizados. O custo marginal de operação de uma usina já paga é muito baixo — mesmo que o LCOE de nova capacidade renovável seja menor.

💰 2. Custo do capital e desenvolvimento

Para países como Índia, Indonésia, Vietnam e Bangladesh — com 2 bilhões de pessoas ainda sem acesso estável à eletricidade — o carvão oferece geração despachável e barata com financiamento acessível. Alternativas renováveis exigem mais capital inicial e sistemas de armazenamento.

⚡ 3. Despachabilidade — o problema da intermitência

Uma termelétrica a carvão gera eletricidade 24 horas por dia, 7 dias por semana, independente do tempo. Solar só gera de dia; eólica depende do vento. Sem armazenamento adequado, substituir carvão por renováveis exige infraestrutura adicional que muitos países ainda não têm.

🌍 4. Segurança energética

Carvão é uma commodity global disponível em muitos países. Países sem petróleo nem gás mas com carvão (Índia, África do Sul, Polônia) dependem dele para não depender de importações caras. A crise energética europeia de 2022 mostrou o preço da dependência de gás importado.

👷 5. Empregos e política

No mundo há mais de 7 milhões de trabalhadores diretamente empregados na mineração de carvão. Em Polônia, África do Sul e partes dos EUA, o carvão é central para comunidades inteiras. Fechamentos de minas geram resistência política intensa — mesmo com compensação econômica.

📈 6. Crescimento da demanda supera as renováveis

A demanda elétrica global cresceu 64% desde 2000 — quase 13.000 TWh a mais. Solar e eólica cresceram muito, mas a demanda cresceu mais rápido em países como China e Índia. O carvão preencheu parte desse gap — mesmo com renováveis crescendo rapidamente.

Participação do Carvão na Geração Elétrica — Países Selecionados (2000 → 2022)
% da geração elétrica total de cada país · Fonte: Energy Institute / Our World in Data

O caso da China — o maior produtor e consumidor do mundo

A China é o coração do paradoxo. É o maior emissor de CO₂ do mundo, o maior produtor de carvão — e ao mesmo tempo o maior investidor em energia solar e eólica do planeta. Em 2022, a China instalou mais capacidade solar em um único ano do que os EUA instalaram em toda a sua história até 2019.

China: Geração a Carvão vs Solar + Eólica (TWh) — 2000–2022
A China é ao mesmo tempo o maior usuário de carvão E o maior investidor em renováveis · Fonte: Energy Institute

O gráfico mostra o dilema chinês em números: a geração a carvão cresceu de 1.060 para 5.415 TWh — mas a solar+eólica cresceu de quase zero para mais de 1.000 TWh. A China está fazendo as duas coisas ao mesmo tempo: descarbonizando o crescimento marginal com renováveis enquanto mantém o carvão para sustentar a base. Para uma economia que cresceu 13 vezes em PIB per capita desde 2000, isso é politicamente compreensível — mesmo que climaticamente problemático.

O declínio nos países ricos — o que funcionou

EUA e Alemanha: Declínio do Carvão e Ascensão das Renováveis (2000–2022)
TWh · Dois modelos diferentes de transição · Fonte: Energy Institute / Our World in Data

Os EUA reduziram sua geração a carvão de 1.966 TWh em 2000 para 831 TWh em 2022 — queda de 58%. O principal motor foi econômico: o gás natural de xisto (shale gas) ficou tão barato que tornou o carvão não competitivo em leilões de energia. Não foi política climática — foi mercado. A Alemanha reduziu de 297 para 180 TWh — queda de 39%, impulsionada pela Energiewende (política de transição energética) e pela expansão de eólica offshore e solar.

A lição dos EUA: O carvão americano foi derrubado principalmente pelo gás barato, não por política climática. Quando um substituto mais barato aparece, a transição acontece rapidamente — sem necessidade de regulação. É o argumento mais forte a favor de tornar as renováveis ainda mais baratas: a transição econômica pode superar a resistência política.

Tabela: os maiores consumidores de carvão em 2022

País Carvão 2022 (TWh elét.) % da matriz elétrica CO₂ gerado (Mt) PIB/capita (USD) Tendência
China5.41555,3%8.46912.971↗ Cresce
Índia1.34455,6%1.8562.347↗↗ Forte alta
EUA83210,4%91676.657↘ Caindo
Japão35127,5%40434.066↘ Leve queda
Indonésia20544,2%4054.731↗↗ Forte alta
Coreia do Sul20924,2%27334.822→ Estável
África do Sul20269,9%3576.534→ Estável
Alemanha18018,8%23950.507↘↘ Queda forte
Polônia12541,9%17218.891↘ Caindo lento
Vietnam10442,1%1774.148↗ Crescendo
Participação do Carvão na Matriz Elétrica vs PIB per capita (2022)
Cada ponto é um país com população > 5 milhões · Fonte: Energy Institute / World Bank

O scatter plot revela uma correlação clara mas não absoluta: países mais pobres tendem a ter maior dependência do carvão. Mas há exceções marcantes nos dois sentidos. A África do Sul é pobre para seu uso de carvão (70%). A Alemanha e a Polônia são ricas mas ainda dependentes. Coreia do Sul e Japão são ricas mas ainda usam muito carvão por razões de segurança energética (poucos recursos próprios de renováveis ou gás).

O paradoxo em perspectiva

Por que o carvão declina em alguns lugares e cresce em outros — ao mesmo tempo

↓ Onde o carvão declina

  • EUA: gás de xisto derrubou o custo marginal
  • Europa: política climática + renováveis competitivas
  • Austrália: solar barato substitui gradualmente
  • Reino Unido: carvão praticamente zerado em 2023
  • Países nórdicos: hidrelétrica abundante e barata

→ Onde o carvão resiste ou cresce

  • China: crescimento de demanda supera renováveis
  • Índia: eletrificação de 1,4 bi de pessoas
  • Indonésia e Vietnam: industrialização acelerada
  • África do Sul: sem alternativa barata construída
  • Polônia: empregos mineração e soberania energética

Por que o carvão ainda domina — e quando isso pode mudar

Fontes e Referências