Neste artigo
- O quadro global — emissões em 2024
- O maior emissor atual: China
- O maior emissor acumulado: EUA
- Per capita — quem realmente polui mais
- O Brasil no mundo — a aparente contradição
- Emissões brasileiras por setor — 2024
- O boi brasileiro, o desmatamento e a floresta
- A queda histórica de 2024 e a COP30
- Conclusão
1. O quadro global — emissões em 2024
Em 2024, as emissões globais de CO₂ provenientes de combustíveis fósseis atingiram 41,6 bilhões de toneladas métricas — um novo recorde histórico, conforme o relatório Global Carbon Budget apresentado na COP29. Isso representa um aumento de cerca de 0,8% em relação a 2023, apesar de todos os acordos climáticos em vigor desde o Acordo de Paris de 2015.
Para entender a dimensão desse número: se o CO₂ emitido em um único ano fosse empilhado como blocos de gelo, formaria uma camada de 1 metro cobrindo toda a superfície da Terra. O CO₂ permanece na atmosfera por centenas de anos — cada tonelada emitida hoje afeta o clima das próximas gerações.
globalmente em 2024
nas emissões globais
nas emissões globais
na atmosfera (2024)
(energia, BEN 2024)
(comparação, 2022)
Os 10 maiores emissores são responsáveis por 67% das emissões globais totais. China sozinha emite mais que EUA e UE juntos.
2. O maior emissor atual: China
A China é o maior emissor de CO₂ do mundo desde 2006, quando ultrapassou os Estados Unidos. Em 2023, respondeu por ~32% de todas as emissões globais de CO₂ — mais de 11 bilhões de toneladas por ano. Esse número é maior que a soma das emissões dos EUA, União Europeia e Japão.
O crescimento foi impulsionado por décadas de industrialização acelerada, com economia alimentada majoritariamente por carvão. Em 2022, o carvão ainda respondia por 55% da geração elétrica chinesa — a maior dependência de carvão entre as grandes economias do mundo.
Mas o cenário está mudando rapidamente. A China também lidera a instalação de energias renováveis: em 2023, instalou mais capacidade solar em um único ano do que o mundo inteiro instalou em 2022. O pico das emissões chinesas ainda não chegou, mas analistas estimam que pode ocorrer entre 2025 e 2030 — antes da meta oficial de 2030.
3. O maior emissor acumulado histórico: Estados Unidos
Quando olhamos para as emissões acumuladas desde 1850 — a medida mais relevante para o clima, já que o CO₂ permanece na atmosfera por séculos — o panorama muda completamente. Os Estados Unidos lideram com folga o ranking histórico, responsáveis por cerca de 20% de todo o CO₂ emitido pela humanidade desde o início da Revolução Industrial.
Quando incluído o desmatamento histórico, Brasil e Indonésia entram no top 5 de emissores acumulados — uma perspectiva muito diferente do ranking de emissões anuais por combustíveis fósseis.
O Reino Unido foi o maior emissor do mundo em 1850 — suas emissões superavam em seis vezes as dos EUA na época. Ao longo do século XIX e XX, Europa Ocidental e América do Norte dominaram o ranking enquanto se industrializavam. Apenas a partir dos anos 2000 a China emergiu como protagonista, e em 2006 ultrapassou os EUA em emissões anuais.
Essa distinção entre emissões anuais e acumuladas é central no debate climático internacional. Países em desenvolvimento argumentam — com razão científica — que o CO₂ que causou o aquecimento atual foi majoritariamente emitido por países ricos que se industrializaram primeiro. Os EUA emitiram 20% do total histórico com apenas 4% da população mundial.
4. Per capita — quem realmente polui mais por pessoa
A comparação em termos absolutos é enganosa sem considerar a população. Emissões per capita — toneladas de CO₂ por habitante por ano — revelam uma realidade diferente.
Os EUA emitem 13,8 t CO₂/hab — quase 7 vezes mais que o Brasil (2,0 t/hab), considerando apenas o setor de energia. Os países do Oriente Médio têm as maiores emissões per capita do mundo.
Os países do Oriente Médio lideram em emissões per capita — Catar, Kuwait e Emirados Árabes chegam a 30–40 toneladas por habitante, reflexo da intensa atividade petrolífera e do consumo energético elevado. Os EUA, com 13,8 t/hab, são o maior emissor per capita entre as grandes economias. A Alemanha está em 7,7 t/hab, a China em 7,5 t/hab e a média mundial em 4,7 t/hab.
O Brasil, medido apenas pelas emissões do setor de energia, emite apenas 2,0 t CO₂/hab — menos que um terço da média dos países da OCDE. Mas esse número esconde a realidade do desmatamento e da agropecuária, que, incluídos no total de GEE, levam o Brasil a 10,5 t CO₂ eq/hab em emissões brutas totais em 2024 (dados SEEG).
5. O Brasil no mundo — a aparente contradição
O Brasil é um caso único no debate climático global, e compreendê-lo exige clareza sobre o que estamos medindo. Existem dois indicadores muito diferentes que o país costuma apresentar:
Emissões de CO₂ do setor de energia: o Brasil emite apenas ~2 t CO₂/hab — um dos menores índices entre economias emergentes. Isso porque a matriz elétrica é 88% renovável e o etanol substitui parte da gasolina. O setor elétrico emite apenas 59,9 kg CO₂/MWh — contra 678 kg/MWh da China.
Emissões totais de GEE (todos os gases, todos os setores): aqui o Brasil sobe muito. Em emissões brutas totais, o país emitiu 2,145 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2024 — ocupando a 6ª posição entre os maiores emissores globais quando incluídas emissões de uso do solo e agropecuária.
só setor de energia
emissões brutas totais (SEEG 2024)
A diferença entre 2,0 t (energia) e 10,5 t (total bruto) é explicada pelo desmatamento e pela pecuária. O Brasil não é um grande emissor industrial — é um grande emissor de uso do solo. Essa distinção importa para as políticas climáticas: reduzir emissões no Brasil não passa principalmente por fechar usinas a carvão (como na China) ou descarbonizar a indústria (como na Alemanha) — passa por combater o desmatamento e transformar o sistema agropecuário.
6. Emissões brasileiras por setor — 2024
Os dados mais completos e recentes sobre as emissões brasileiras vêm do SEEG — Sistema de Estimativas de Emissões de GEE, do Observatório do Clima, publicados em novembro de 2025 com dados referentes a 2024.
Mudança de uso da terra (desmatamento) e agropecuária juntos respondem por 71% das emissões brutas brasileiras — perfil radicalmente diferente do padrão global, onde a energia domina com 75% do total.
Emissões brutas por setor · Brasil 2024 · Fonte: SEEG / Observatório do Clima (nov. 2025)
Olhando as emissões líquidas (descontadas as remoções por florestas protegidas), o quadro é ainda mais revelador: a agropecuária assume o topo com 42%, seguida pela energia (29%), uso do solo (17%), resíduos (6%) e processos industriais (6%).
| Setor | Emissões Brutas (MtCO₂e) | % do Total | Δ% vs 2023 |
|---|---|---|---|
| Mudança de Uso da Terra (desmatamento) | 906 | 42% | −32,5% |
| Agropecuária (pecuária + agricultura) | 626 | 29% | −0,7% |
| Energia (transporte + geração + indústria) | 429 | 20% | +0,8% |
| Resíduos | 107 | 5% | +3,6% |
| Processos Industriais | 77 | 4% | +2,8% |
| TOTAL BRASIL 2024 | 2.145 | 100% | −16,7% |
Fonte: SEEG 13ª edição — Observatório do Clima, novembro de 2025. Dados referência: 2024.
A comparação lado a lado revela a singularidade brasileira: no mundo, a energia domina com 75% das emissões. No Brasil, uso do solo e agropecuária somam 71% — invertendo completamente o perfil global.
7. O boi brasileiro, o desmatamento e a floresta
O dado mais surpreendente do SEEG 2024 é este: a pecuária bovina é, sozinha, responsável por 51% de todas as emissões brutas do Brasil — 1,1 GtCO₂e. Se o rebanho bovino brasileiro fosse um país, seria o 7º maior emissor do mundo, ligeiramente à frente do Japão.
Como um animal que come capim emite tanto? Por dois caminhos principais:
Fermentação entérica (o "arroto do boi"): vacas são ruminantes — elas fermentam o alimento no estômago e liberam metano (CH₄) durante a digestão. O metano tem poder de aquecimento global 28 vezes maior que o CO₂ ao longo de 100 anos. Com um rebanho de ~220 milhões de cabeças, o Brasil tem o maior rebanho bovino comercial do mundo — e 404 MtCO₂e só de fermentação entérica.
Desmatamento para pastagem: historicamente, a principal forma de expandir a pecuária no Brasil foi derrubar floresta. Cada hectare de Amazônia convertido em pasto libera décadas de carbono armazenado nas árvores. O setor de Mudança de Uso da Terra — dominado em 98% pelo desmatamento — emitiu 906 MtCO₂e em 2024, mesmo com a queda histórica de 32,5%.
8. A queda histórica de 2024 e a COP30
O dado mais positivo de todo o panorama é também o mais recente: em 2024, as emissões brutas totais do Brasil caíram 16,7% — de 2,576 GtCO₂e para 2,145 GtCO₂e. É a segunda maior queda da história das medições, iniciadas em 1990, perdendo apenas para 2009 (−17,2%).
O pico histórico de emissões foi em 2004, impulsionado pelo desmatamento. A retomada do controle ambiental explica as quedas de 2005–2009 e de 2023–2024. Setores como energia e agropecuária, porém, continuam crescendo.
A queda foi impulsionada quase exclusivamente pela redução do desmatamento. O combate ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado, intensificado pelo governo federal desde 2023, resultou na maior redução histórica de emissões por uso do solo: −32,5%. Todos os outros setores (energia, agropecuária, resíduos, processos industriais) ficaram estáveis ou cresceram.
Esse resultado posiciona o Brasil com um número invejável na véspera da COP30, que ocorreu em novembro de 2025 em Belém — a primeira COP realizada no Brasil. Mas pesquisadores do SEEG alertam: a queda depende da manutenção do controle do desmatamento. A meta climática brasileira (NDC) estabelece um limite de 1,32 bilhão de toneladas líquidas para 2025 — e as estimativas indicam que o país ainda deve ultrapassar essa meta em cerca de 9%.
Conclusão: 3 pontos para fixar
- China emite mais hoje; EUA emitiram mais na história. A China é responsável por 32% das emissões anuais globais de CO₂ — mas os EUA acumularam ~20% de todo o CO₂ emitido desde 1850. Quando incluído o desmatamento histórico, o Brasil sobe para 4º lugar no ranking acumulado — reflexo de décadas de conversão de florestas em pastagem, não de industrialização.
- O Brasil tem dois perfis de emissões radicalmente diferentes. No setor de energia, emite apenas 2,0 t CO₂/hab — um dos menores índices do mundo graças à matriz elétrica renovável. Mas no total bruto de GEE (incluindo desmatamento e pecuária), chega a 10,5 t CO₂e/hab. O problema climático do Brasil não está nas usinas — está nas florestas derrubadas e no rebanho bovino de 220 milhões de cabeças.
- A floresta é a maior alavanca climática disponível para o Brasil. A queda de 16,7% nas emissões em 2024 — segunda maior da história — veio quase toda da redução do desmatamento. Proteger e restaurar florestas é, comprovadamente, a medida de mitigação com maior impacto imediato. Mas isso não basta: energia, agropecuária e transporte precisam de descarbonização própria para que o país cumpra suas metas do Acordo de Paris.
Referências Bibliográficas
- Observatório do Clima — SEEG — 13ª Edição do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa. Dados referência 2024, publicado em novembro de 2025. seeg.eco.br
- Global Carbon Project — Global Carbon Budget 2024. Friedlingstein et al. (2024). Earth System Science Data. Emissões globais de CO₂ por combustíveis fósseis. globalcarbonproject.org
- Our World in Data (OWID) — CO₂ and Greenhouse Gas Emissions. Hannah Ritchie, Pablo Rosado, Max Roser (2024). ourworldindata.org
- WRI — World Resources Institute / Climate Watch — Historical GHG Emissions by Country and Sector. climatewatchdata.org
- Carbon Brief — Analysis: Which countries are historically responsible for climate change? (2021). Inclui emissões acumuladas com desmatamento. carbonbrief.org
- IEA — International Energy Agency — World Energy Balances (2024). Dados de emissões por MWh e per capita por país. iea.org
- EPE — Empresa de Pesquisa Energética — BEN 2025: Balanço Energético Nacional, Ano Base 2024. Dados de emissões do setor energético brasileiro. epe.gov.br
- Prof. Edson Mosman — mosmanLAB · São Paulo, março de 2026. mosmanlab.com.br