Imagine ser responsável por equilibrar, em tempo real, a geração e o consumo de um país continental com 215.000 MW de capacidade instalada. A cada segundo, geração e consumo precisam ser exatamente iguais — uma diferença de frequência maior que 0,2 Hz dispara alarmes, e uma perturbação prolongada pode derrubar parte do sistema. Esse é o trabalho do ONS — Operador Nacional do Sistema Elétrico, com sede em Brasília e centros de operação em Brasília, Florianópolis, Recife e Rio de Janeiro.

O ONS é o maestro de uma orquestra com milhares de instrumentos: hidrelétricas que respondem em segundos, termelétricas que levam horas para partir, eólicas que flutuam com o vento, usinas solares que desligam ao pôr do sol, e uma rede de transmissão com 170 mil km de linhas. A chegada das renováveis intermitentes — solar e eólica — tornou essa tarefa dramaticamente mais complexa. E a Curva do Pato, fenômeno que a Califórnia identificou primeiro em 2013, já é uma realidade cotidiana no sistema elétrico brasileiro.

215 GW
de capacidade instalada total no Brasil em 2025 — o maior sistema interligado renovável do mundo
88%
da geração elétrica brasileira provém de fontes renováveis — hidro, solar, eólica, biomassa e PCH
94.304 MW
pico máximo de demanda registrado no SIN em 2024 — às 19h13, sem solar e com vento abaixo do pico
400 mil h
de cortes de renováveis (curtailment) em 2024 — R$ 1,6 bi em perdas para geradores, 14,6 TWh desperdiçados

O ONS — o maestro invisível da eletricidade brasileira

O Operador Nacional do Sistema Elétrico foi criado em 1998 (Lei 9.648/98) como pessoa jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, para coordenar e controlar a operação das instalações de geração e transmissão que compõem o Sistema Interligado Nacional — SIN. Funciona sob fiscalização da ANEEL e em estreita coordenação com o MME (Ministério de Minas e Energia) e a EPE (Empresa de Pesquisa Energética).

A missão do ONS é garantir que a energia gerada em qualquer ponto do SIN chegue a qualquer consumidor em qualquer outro ponto — mantendo a frequência do sistema em 60 Hz (variação tolerável: ±0,2 Hz) e a tensão dentro das faixas operacionais. Para isso, o ONS decide, hora a hora, quais usinas geram quanto — o chamado despacho de geração.

🔗 Acompanhe a operação do ONS em tempo real:

A curva de carga típica do Brasil — um dia na vida do SIN

A demanda elétrica de um país não é constante — ela varia ao longo do dia seguindo padrões bastante previsíveis ligados ao comportamento humano. O gráfico abaixo mostra a curva de carga típica do Brasil em um dia útil de semana, com os valores representativos do perfil horário do SIN.

Curva de Carga Típica do SIN — Brasil (Dia Útil, GW horário)
Perfil médio representativo · Pico noturno ≈ 94 GW (19h–20h) · Vale madrugada ≈ 52 GW (4h–5h) · Fonte: ONS / EPE / CNN Brasil (2024)

A curva revela três momentos críticos. O vale da madrugada (0h–5h): demanda mínima de 50–55 GW; hidrelétricas e usinas de base operam, mas muitas podem ser reduzidas. O primeiro pico da manhã (8h–12h): demanda sobe para 80–85 GW com a abertura do comércio e da indústria. E o pico da tarde/noite (18h–21h): demanda máxima de 90–94 GW, quando as residências se somam ao consumo industrial — e é exatamente quando a geração solar despenca para zero.

Como cada fonte supre a curva de carga

A magia do sistema elétrico brasileiro é a complementaridade entre fontes. Cada uma tem características diferentes de flexibilidade, previsibilidade e custo marginal:

Composição do Despacho Horário por Fonte — Brasil (Dia Típico de Semana, GW)
Área empilhada · Solar zero à noite · Hidro ajusta para compensar variações · Fonte: ONS / EPE Balanço Energético 2025

O gráfico revela o papel de cada fonte:

Hidrelétricas (azul): são a espinha dorsal e o grande regulador do sistema. Produzem entre 45–55 GW continuamente, mas variam para cima e para baixo em resposta à demanda e à disponibilidade das outras fontes. No pico da tarde, as hidros aumentam a geração para compensar o desaparecimento do solar. Na madrugada, reduzem para economizar água. Em 2024, a amplitude diária das hidros chegou a 38.300 MW — o equivalente à capacidade total de Itaipu e metade de Belo Monte operando só para cobrir a variação diurna.

Solar (amarelo): sobe rapidamente das 7h às 12h, atinge pico ao meio-dia, e cai para zero antes das 19h. É a fonte que mais cresceu — 39,6% em 2024, chegando a 70,7 TWh. Mas sua ausência no pico noturno é o maior desafio operacional atual.

Eólica (verde): no Nordeste brasileiro, sopra mais à noite e de madrugada — o que cria uma complementaridade natural com o solar. É um dos grandes ativos do Brasil: eólica forte quando o solar está fraco ajuda imensamente o ONS. Gerou 107,7 TWh em 2024.

Térmica (cinza/laranja): são as fontes de "último recurso" — têm custo marginal alto e emissões elevadas (exceto biomassa), mas respondem rapidamente ao comando do ONS. Quando os reservatórios estão baixos ou o solar/eólico falha, as térmicas são acionadas. Em 2024, a geração termelétrica cresceu 11,4% — sintoma da transição energética não resolvida.

A Curva do Pato — o problema que a Califórnia revelou e o Brasil enfrenta

A Curva do Pato (Duck Curve) foi identificada pelo operador californiano CAISO em 2013. Ela descreve o perfil da demanda líquida — a demanda total menos a geração solar — ao longo do dia. O nome vem da forma do gráfico, que lembra um pato de perfil: ventre cavado (excesso solar ao meio-dia) e cabeça erguida (pico noturno sem solar).

A Curva do Pato no Brasil — Demanda Líquida vs Demanda Total (GW)
Demanda Líquida = Demanda Total − Geração Solar · Quanto maior a solar, mais pronunciada a "barriga" do pato e mais abrupta a "rampa" à tarde · Cenários: 2020 (pouca solar) vs 2024 (alta solar) vs projeção 2028

A Curva do Pato tem dois problemas físicos concretos:

O ventre (meio-dia): com solar intensa ao meio-dia, a demanda líquida despenca. O sistema pode ter excesso de energia — o que força o ONS a cortar a geração solar e eólica (curtailment) ou a reduzir as hidros ao mínimo técnico. Em 2024, foram 14,6 TWh cortados — energia que poderia ter sido usada, desperdiçada por falta de flexibilidade de rede e armazenamento.

A cabeça (entardecer): quando o sol se põe, por volta das 17h–18h, a demanda líquida dispara em poucos minutos. O sistema precisa de uma rampa de geração rápida — usinas que aumentam produção em tempo recorde. No Brasil, isso é feito pelas hidrelétricas (que respondem em segundos) e pelas térmicas (que levam minutos a horas). Em 2024, o ONS registrou rampas de até 38.300 MW em um único dia.

A "Rampa do Entardecer" — Variação de Geração Necessária entre 16h e 20h (MW/hora)
Quanto mais solar no sistema, maior a rampa que as usinas flexíveis precisam cobrir · Fonte: ONS PEN 2024 / CNN Brasil

Segurança Energética — o conceito mais importante da transição

Segurança energética é a capacidade de um país garantir energia confiável, acessível e suficiente para sua população e economia — independentemente de choques externos ou variações internas. A Agência Internacional de Energia (IEA) define quatro dimensões:

As 4 Dimensões da Segurança Energética — Brasil vs Comparadores (2025)
Radar normalizado 0–10 · Quanto mais externo, melhor · Fontes: IEA / EPE / ONS / World Energy Security Index

O Brasil tem uma situação sui generis em segurança energética. Na dimensão de disponibilidade, é privilegiado: sol abundante, vento regular no NE, rios caudalosos, potencial hídrico ainda não explorado, pré-sal para térmica de base. Na dimensão de sustentabilidade, está entre os melhores do mundo: 88% da eletricidade é renovável, emissões de apenas 59,9 kg CO₂/MWh (vs. >400 nos EUA). Mas na dimensão de resiliência — capacidade de suportar choques — há vulnerabilidades sérias:

Capacidade Instalada do SIN por Fonte — Brasil 2025 (GW)
Total: ~215 GW · Hidro inclui UHE grandes + PCH · Solar inclui GD distribuída + usinas centralizadas · Fonte: ANEEL / EPE / ONS 2025
Geração Elétrica por Fonte — Brasil 2024 (TWh e % do total)
Total: ~750 TWh · Solar cresceu 39,6% · Eólica cresceu 12,4% · Fonte: EPE Balanço Energético Nacional 2025

A vantagem única do Brasil: a hidrelétrica como bateria

O Brasil tem uma vantagem que a Califórnia, Alemanha e China não têm: hidrelétricas com reservatório de grande volume. Uma hidrelétrica com reservatório é, na prática, uma bateria gigante. A água represada é energia potencial armazenada. Quando a solar e a eólica produzem muito (meio-dia, dia ventoso), a hidro reduz a geração e "guarda água". Quando falta energia (pico noturno, calmaria), a hidro aumenta instantaneamente.

Essa complementaridade é o grande ativo do sistema brasileiro. A hidro responde em segundos — muito mais rápido que uma térmica a gás (que leva 30–60 minutos para partir do zero). Isso permite ao ONS absorver variações bruscas de solar e eólica sem necessidade de baterias caras.

O paradoxo climático da hidrelétrica brasileira: As mudanças climáticas que justificam e aceleram a expansão solar e eólica também aumentam a frequência de secas extremas — reduzindo a disponibilidade dos reservatórios. Em 2021, a pior seca em 91 anos levou o PLD ao teto (R$ 822/MWh) e quase provocou racionamento. O Brasil precisa de armazenamento adicional — baterias, bombeamento hidráulico ou hidrogênio verde — para reduzir essa dependência climática.
Crescimento da Solar e Amplitude Diária das Hidrelétricas (2018–2024)
À medida que cresce a solar, as hidros precisam variar mais ao longo do dia para compensar · Amplitude = diferença entre geração hidro mínima e máxima no mesmo dia · Fonte: ONS PEN 2024

O que o ONS faz para resolver o problema — as ferramentas do maestro

O ONS conta com um conjunto sofisticado de ferramentas para manter o equilíbrio do sistema frente à intermitência crescente:

1. Despacho centralizado: o ONS define, por otimização matemática, quais usinas geram quanto a cada hora — o DESSEM (curto prazo) e o NEWAVE/DECOMP (médio e longo prazo) são os modelos utilizados. O objetivo: minimizar o custo total de operação, respeitando restrições físicas e de confiabilidade.

2. Intercâmbio entre subsistemas: o SIN é dividido em 4 subsistemas (Norte, Nordeste, SE/CO, Sul) conectados por linhas de transmissão. Quando o Nordeste tem excesso de eólica de madrugada, o ONS transfere para o Sudeste, onde a demanda é maior. A capacidade de intercâmbio é limitada — e por isso 75% dos cortes de renováveis em 2024 foram no Nordeste.

3. Curtailment: quando não há demanda para absorver o excesso de renovável e não há capacidade de transmissão para escoar, o ONS ordena o corte da geração. Em 2024, foram 400 mil horas de curtailment, causando R$ 1,6 bilhão em perdas para geradores. É um sinal claro de que a rede de transmissão não acompanha a velocidade de instalação das renováveis.

4. Termelétricas como regulação: o ONS aciona térmicas principalmente no horário de pico (18h–22h) e em períodos secos. Em 2024, a geração termelétrica cresceu 11,4% — uma consequência direta da Curva do Pato e das secas.

Curtailment de Renováveis no Brasil — Energia Cortada (TWh/ano)
75% concentrado no Nordeste em 2024 · R$ 1,6 bilhão em perdas para geradores · Sinal de gargalo de transmissão · Fonte: Volt Robotics / Portal Solar (fev/2025)

O futuro — as soluções para a Curva do Pato brasileira

O ONS e o setor elétrico brasileiro têm pela frente um conjunto de soluções necessárias:

Soluções para a Curva do Pato — Eficácia vs Maturidade Tecnológica no Brasil
Posicionamento qualitativo · Cada círculo = uma solução · Tamanho = custo de implantação relativo · Fontes: EPE / ONS / literatura especializada

O que aprendemos com a Curva do Pato brasileira

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Fontes e Referências