Este artigo analisa a matriz energética brasileira com base nos dados do BEN 2025 (EPE) — o Balanço Energético Nacional, publicação oficial do Ministério de Minas e Energia. Mostramos como a energia se divide entre fontes renováveis e não renováveis, quanto efetivamente se transforma em eletricidade, e o que cada fonte — hidráulica, solar, eólica, petróleo, biomassa — representa no total.

Neste artigo

  1. O marco histórico: 50% renovável
  2. A Oferta Interna de Energia — o que é e como se divide
  3. O que cada fonte representa
  4. Quanto vira eletricidade — a eletrificação da matriz
  5. A matriz elétrica — 88% renovável
  6. Brasil vs mundo: uma posição única
  7. Conclusão

1. O marco histórico: 50% renovável

Em 2024, pela primeira vez desde 1990, o Brasil atingiu exatamente 50% de participação de fontes renováveis na sua Oferta Interna de Energia (OIE) — o total de energia disponibilizada no país. Segundo o BEN 2025, publicado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a OIE total chegou a 322 milhões de tep (toneladas equivalentes de petróleo), com 161 Mtep de origem renovável e 161 Mtep de origem não renovável.

Esse número coloca o Brasil em posição absolutamente singular no cenário global. Para comparação, a média mundial de renováveis na matriz primária é de apenas 14,3% (dados da IEA para 2022), e os países da OCDE chegam a 13,2%.

50%
Renováveis na matriz
energética brasileira (2024)
14,3%
Média mundial de
renováveis (2022 — IEA)
322 Mtep
Oferta Interna de
Energia total (2024)
+2,4%
Crescimento da OIE
em relação a 2023
Por que 2024 é um marco? A última vez que o Brasil registrou 50% ou mais de renováveis na matriz total foi em 1990, quando a economia era menor e menos industrializada. Recuperar esse patamar em 2024, com uma economia muito maior, é o resultado direto da expansão rápida de solar e eólica nos últimos 10 anos.

2. A Oferta Interna de Energia — o que é e como se divide

Antes de olhar os números, é importante entender o conceito de Oferta Interna de Energia (OIE). Ela representa toda a energia disponibilizada no país — produção nacional somada às importações líquidas. Inclui petróleo, gás, biomassa, hidráulica, solar, eólica, nuclear, carvão e tudo mais que movimenta a economia brasileira.

A OIE é a "torta" total de energia do país. Dentro dela, cada fonte tem uma fatia. A questão central é: como essa torta está dividida entre renováveis e não renováveis?

Participação das fontes na OIE brasileira — 2024
Fonte: BEN 2025 — EPE / Ministério de Minas e Energia · Ano base 2024

A biomassa da cana (16,7%) é a maior fonte renovável, seguida pela hidráulica (11,6%). Petróleo e derivados lideram o total com 34%.

O petróleo ainda domina, respondendo por 34% da OIE. Mas a diferença em relação a 2015, quando representava 37,2%, mostra uma queda consistente. As fontes que cresceram no mesmo período foram, principalmente, eólica (de 0,6% para 2,9%) e solar (de 0,2% para 2,2%) — fontes que antes eram praticamente inexistentes na matriz brasileira.

3. O que cada fonte representa

A tabela abaixo traz o detalhamento completo da OIE por fonte, com os valores de 2023 e 2024 segundo o BEN 2025:

Fonte 2023 (Mtep) 2024 (Mtep) % 2024 Δ% 24/23
Biomassa da Cana52,953,716,7%+1,6%
Energia Hidráulica37,937,311,6%−1,7%
Lenha e Carvão Vegetal27,327,48,5%+0,4%
Licor Preto e Outras Renováveis22,626,28,1%+15,7%
Eólica8,29,32,9%+12,4%
Solar5,47,22,2%+33,2%
Total Renováveis154,3161,050,0%+4,3%
Petróleo e Derivados110,5109,634,0%−0,8%
Gás Natural30,231,09,6%+2,5%
Carvão Mineral13,714,44,5%+5,2%
Urânio (U₃O₈)3,84,21,3%+8,0%
Outras Não Renováveis1,91,80,6%−2,0%
Total Não Renováveis160,1161,050,0%+0,5%
TOTAL OIE314,5322,0100%+2,4%

Considerações sobre cada fonte

Biomassa da Cana (16,7%) — É a maior fonte renovável do Brasil. Inclui o bagaço de cana usado nas usinas sucroenergéticas e o etanol consumido no transporte. O etanol de milho cresce rapidamente — já responde por 20% da produção de etanol hidratado, reduzindo a dependência exclusiva da cana.

Hidráulica (11,6%) — Historicamente o pilar da geração elétrica brasileira. Sua participação na OIE total vem caindo (era 11,3% em 2015) porque a demanda total cresceu mais que a capacidade instalada de novas hidrelétricas. Em 2024 houve leve queda de 1,7% por questões hidrológicas.

Eólica (2,9%) e Solar (2,2%) — As duas fontes de maior crescimento percentual na última década. A solar cresceu 33% só em 2024, e a eólica 12,4%. Juntas, já representam 23,7% de toda a geração elétrica do país — mais que o dobro de cinco anos atrás. A capacidade instalada solar ultrapassou 48.000 MW em 2024.

Petróleo e Derivados (34%) — Ainda domina, principalmente pelo uso direto no transporte (diesel para caminhões, gasolina para carros, querosene para aviões). Sua participação caiu de 37,2% em 2015 para 34% em 2024, reflexo da expansão dos biocombustíveis e de alguma eletrificação do transporte.

A contradição da biomassa: o Brasil tem 50% de renováveis na matriz, mas 16,7% disso vem de biomassa da cana — que é renovável, mas emite CO₂ quando queimada. A diferença entre o Brasil e países como Noruega é que lá a liderança renovável vem de hidro e eólica sem combustão. No BEN, a biomassa conta como renovável pelo ciclo do carbono, mas do ponto de vista climático o etanol é muito diferente de um painel solar.

4. Quanto vira eletricidade — a eletrificação da matriz

Uma das perguntas mais importantes sobre qualquer matriz energética é: de toda a energia consumida, quanto efetivamente vira eletricidade?

A resposta para o Brasil em 2024 é: 19%. A Oferta Interna de Energia Elétrica (OIEE) foi de 762,9 TWh em uma OIE total de 322 Mtep. Os outros 81% são consumidos diretamente como calor, combustível, ou se perdem em processos de transformação.

Para onde vai a energia consumida no Brasil — 2024
Consumo final por setor · Fonte: BEN 2025 — EPE

Transportes (33,2%) e Indústria (31,7%) juntos respondem por 65% de todo o consumo final de energia no Brasil.

O gráfico do consumo final por setor revela por que a eletrificação ainda é baixa. O transporte consome 33,2% de toda a energia final — e quase tudo é petróleo direto (óleo diesel para caminhões, gasolina, querosene de aviação). A eletricidade representa apenas uma fração marginal do transporte, embora em 2024 o BEN tenha registrado pela primeira vez o consumo de eletricidade em veículos rodoviários: 309 GWh, com 215.000 veículos elétricos acumulados.

Composição do consumo final de energia — Brasil 2024
Eletric.
19%
Óleo Diesel
20,7%
Biomassa Ind.
11,9%
Gasolina
9,1%
Etanol
6,8%
Lenha
6,9%
Gás Nat.
5,3%
Outros
20%
Eletricidade (19,3%) Óleo Diesel — transporte (20,7%) Biomassa industrial (11,9%) Gasolina (9,1%) Etanol (6,8%) Lenha (6,9%) Gás Natural (5,3%)

Fonte: BEN 2025 — EPE / Tabela de consumo final energético por fonte, ano base 2024

O conceito-chave: a eletrificação da economia significa fazer mais setores (transporte, calor industrial) migrarem para eletricidade. No Brasil, onde a eletricidade já é 88% renovável, cada carro elétrico, cada aquecedor elétrico, cada forno industrial elétrico tem impacto climático imediato — porque a energia que vai alimentá-los é quase toda limpa. Esse é o principal argumento para acelerar a eletrificação no Brasil.

5. A matriz elétrica — 88% renovável

Se a matriz energética total tem 50% de renováveis, a matriz elétrica especificamente é muito mais limpa: 88,2% de renováveis em 2024. A geração elétrica total foi de 751,3 TWh, crescimento de 6,1% em relação a 2023.

Participação das fontes na geração elétrica — Brasil 2023 vs 2024
Fonte: BEN 2025 — EPE · TWh gerados por fonte

Solar fotovoltaica cresceu 39,6% e eólica 12,4% em 2024. A hidráulica caiu levemente (−1,0%) por questões hidrológicas, mas permanece dominante com 56,1% da geração.

Os destaques de 2024 na geração elétrica são notáveis:

Solar fotovoltaica saltou de 50,6 TWh para 70,7 TWh — crescimento de 39,6%, o maior entre todas as fontes. A capacidade instalada chegou a 48.468 MW, expansão de 28,1%. Isso inclui tanto usinas centralizadas quanto a micro e minigeração distribuída (MMGD), que atingiu 42.268 GWh — representando 5,6% de toda a geração elétrica do país. A energia solar já é uma realidade no telhado de residências e empresas.

Eólica chegou a 107,7 TWh, crescimento de 12,4%. Junto com a solar, as duas fontes somadas representaram 23,7% de toda a geração elétrica em 2024 — comparado a menos de 1% em 2010. É uma transformação radical em menos de 15 anos.

Gás natural cresceu 23,9% — o maior crescimento em termos percentuais entre as fontes não renováveis. Isso ocorreu parcialmente para compensar a leve queda na geração hidráulica causada por estresse hídrico em algumas regiões.

Renovabilidade da matriz elétrica brasileira — 2004 a 2024
% de renováveis na Oferta Interna de Energia Elétrica · Fonte: BEN 2025 — EPE

Desde 2004 o Brasil nunca ficou abaixo de 70% de renováveis na geração elétrica — patamar considerado excepcionalmente elevado em comparação mundial.

O setor elétrico brasileiro emite apenas 59,9 kg de CO₂ por MWh gerado — comparado a 270 kg/MWh da Europa OCDE, 358 kg/MWh dos EUA e 678 kg/MWh da China (dados IEA 2022). Isso significa que eletrificar um carro no Brasil tem um impacto climático muito maior do que eletrificar um carro na Alemanha ou nos EUA.

6. Brasil vs mundo: uma posição única

Para entender a singularidade da posição brasileira, é útil comparar com as médias globais. O gráfico abaixo mostra a participação de renováveis na OIE para diferentes regiões:

Participação de renováveis na matriz energética — comparação internacional
% de fontes renováveis na Oferta Interna de Energia · Fontes: BEN 2025 (EPE) e IEA

O Brasil (50%) tem mais que o triplo da participação renovável da média mundial (14,3%) e quase quatro vezes a dos países da OCDE (13,2%).

Essa vantagem tem uma explicação histórica e geográfica: o Brasil construiu seu parque de geração elétrica principalmente com hidrelétricas (a maior reserva de água doce do mundo), desenvolveu o maior programa de biocombustíveis do planeta (o Proálcool, nos anos 1970), e tem um dos melhores recursos eólicos e solares do mundo — o Nordeste brasileiro tem irradiância solar comparável ao deserto do Saara.

Mas há um contraponto importante. O Brasil tem 50% de renováveis, mas apenas 19% de eletricidade na sua matriz. Por quê? Porque uma parcela enorme das renováveis brasileiras (etanol, biodiesel, biomassa) é queimada diretamente no transporte e na indústria — não vira eletricidade. A eletrificação da economia é o próximo passo.

Conclusão: 3 pontos para fixar

Referências Bibliográficas