Neste artigo
1. O marco histórico: 50% renovável
Em 2024, pela primeira vez desde 1990, o Brasil atingiu exatamente 50% de participação de fontes renováveis na sua Oferta Interna de Energia (OIE) — o total de energia disponibilizada no país. Segundo o BEN 2025, publicado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a OIE total chegou a 322 milhões de tep (toneladas equivalentes de petróleo), com 161 Mtep de origem renovável e 161 Mtep de origem não renovável.
Esse número coloca o Brasil em posição absolutamente singular no cenário global. Para comparação, a média mundial de renováveis na matriz primária é de apenas 14,3% (dados da IEA para 2022), e os países da OCDE chegam a 13,2%.
energética brasileira (2024)
renováveis (2022 — IEA)
Energia total (2024)
em relação a 2023
2. A Oferta Interna de Energia — o que é e como se divide
Antes de olhar os números, é importante entender o conceito de Oferta Interna de Energia (OIE). Ela representa toda a energia disponibilizada no país — produção nacional somada às importações líquidas. Inclui petróleo, gás, biomassa, hidráulica, solar, eólica, nuclear, carvão e tudo mais que movimenta a economia brasileira.
A OIE é a "torta" total de energia do país. Dentro dela, cada fonte tem uma fatia. A questão central é: como essa torta está dividida entre renováveis e não renováveis?
A biomassa da cana (16,7%) é a maior fonte renovável, seguida pela hidráulica (11,6%). Petróleo e derivados lideram o total com 34%.
O petróleo ainda domina, respondendo por 34% da OIE. Mas a diferença em relação a 2015, quando representava 37,2%, mostra uma queda consistente. As fontes que cresceram no mesmo período foram, principalmente, eólica (de 0,6% para 2,9%) e solar (de 0,2% para 2,2%) — fontes que antes eram praticamente inexistentes na matriz brasileira.
3. O que cada fonte representa
A tabela abaixo traz o detalhamento completo da OIE por fonte, com os valores de 2023 e 2024 segundo o BEN 2025:
| Fonte | 2023 (Mtep) | 2024 (Mtep) | % 2024 | Δ% 24/23 |
|---|---|---|---|---|
| Biomassa da Cana | 52,9 | 53,7 | 16,7% | +1,6% |
| Energia Hidráulica | 37,9 | 37,3 | 11,6% | −1,7% |
| Lenha e Carvão Vegetal | 27,3 | 27,4 | 8,5% | +0,4% |
| Licor Preto e Outras Renováveis | 22,6 | 26,2 | 8,1% | +15,7% |
| Eólica | 8,2 | 9,3 | 2,9% | +12,4% |
| Solar | 5,4 | 7,2 | 2,2% | +33,2% |
| Total Renováveis | 154,3 | 161,0 | 50,0% | +4,3% |
| Petróleo e Derivados | 110,5 | 109,6 | 34,0% | −0,8% |
| Gás Natural | 30,2 | 31,0 | 9,6% | +2,5% |
| Carvão Mineral | 13,7 | 14,4 | 4,5% | +5,2% |
| Urânio (U₃O₈) | 3,8 | 4,2 | 1,3% | +8,0% |
| Outras Não Renováveis | 1,9 | 1,8 | 0,6% | −2,0% |
| Total Não Renováveis | 160,1 | 161,0 | 50,0% | +0,5% |
| TOTAL OIE | 314,5 | 322,0 | 100% | +2,4% |
Considerações sobre cada fonte
Biomassa da Cana (16,7%) — É a maior fonte renovável do Brasil. Inclui o bagaço de cana usado nas usinas sucroenergéticas e o etanol consumido no transporte. O etanol de milho cresce rapidamente — já responde por 20% da produção de etanol hidratado, reduzindo a dependência exclusiva da cana.
Hidráulica (11,6%) — Historicamente o pilar da geração elétrica brasileira. Sua participação na OIE total vem caindo (era 11,3% em 2015) porque a demanda total cresceu mais que a capacidade instalada de novas hidrelétricas. Em 2024 houve leve queda de 1,7% por questões hidrológicas.
Eólica (2,9%) e Solar (2,2%) — As duas fontes de maior crescimento percentual na última década. A solar cresceu 33% só em 2024, e a eólica 12,4%. Juntas, já representam 23,7% de toda a geração elétrica do país — mais que o dobro de cinco anos atrás. A capacidade instalada solar ultrapassou 48.000 MW em 2024.
Petróleo e Derivados (34%) — Ainda domina, principalmente pelo uso direto no transporte (diesel para caminhões, gasolina para carros, querosene para aviões). Sua participação caiu de 37,2% em 2015 para 34% em 2024, reflexo da expansão dos biocombustíveis e de alguma eletrificação do transporte.
4. Quanto vira eletricidade — a eletrificação da matriz
Uma das perguntas mais importantes sobre qualquer matriz energética é: de toda a energia consumida, quanto efetivamente vira eletricidade?
A resposta para o Brasil em 2024 é: 19%. A Oferta Interna de Energia Elétrica (OIEE) foi de 762,9 TWh em uma OIE total de 322 Mtep. Os outros 81% são consumidos diretamente como calor, combustível, ou se perdem em processos de transformação.
Transportes (33,2%) e Indústria (31,7%) juntos respondem por 65% de todo o consumo final de energia no Brasil.
O gráfico do consumo final por setor revela por que a eletrificação ainda é baixa. O transporte consome 33,2% de toda a energia final — e quase tudo é petróleo direto (óleo diesel para caminhões, gasolina, querosene de aviação). A eletricidade representa apenas uma fração marginal do transporte, embora em 2024 o BEN tenha registrado pela primeira vez o consumo de eletricidade em veículos rodoviários: 309 GWh, com 215.000 veículos elétricos acumulados.
Fonte: BEN 2025 — EPE / Tabela de consumo final energético por fonte, ano base 2024
5. A matriz elétrica — 88% renovável
Se a matriz energética total tem 50% de renováveis, a matriz elétrica especificamente é muito mais limpa: 88,2% de renováveis em 2024. A geração elétrica total foi de 751,3 TWh, crescimento de 6,1% em relação a 2023.
Solar fotovoltaica cresceu 39,6% e eólica 12,4% em 2024. A hidráulica caiu levemente (−1,0%) por questões hidrológicas, mas permanece dominante com 56,1% da geração.
Os destaques de 2024 na geração elétrica são notáveis:
Solar fotovoltaica saltou de 50,6 TWh para 70,7 TWh — crescimento de 39,6%, o maior entre todas as fontes. A capacidade instalada chegou a 48.468 MW, expansão de 28,1%. Isso inclui tanto usinas centralizadas quanto a micro e minigeração distribuída (MMGD), que atingiu 42.268 GWh — representando 5,6% de toda a geração elétrica do país. A energia solar já é uma realidade no telhado de residências e empresas.
Eólica chegou a 107,7 TWh, crescimento de 12,4%. Junto com a solar, as duas fontes somadas representaram 23,7% de toda a geração elétrica em 2024 — comparado a menos de 1% em 2010. É uma transformação radical em menos de 15 anos.
Gás natural cresceu 23,9% — o maior crescimento em termos percentuais entre as fontes não renováveis. Isso ocorreu parcialmente para compensar a leve queda na geração hidráulica causada por estresse hídrico em algumas regiões.
Desde 2004 o Brasil nunca ficou abaixo de 70% de renováveis na geração elétrica — patamar considerado excepcionalmente elevado em comparação mundial.
6. Brasil vs mundo: uma posição única
Para entender a singularidade da posição brasileira, é útil comparar com as médias globais. O gráfico abaixo mostra a participação de renováveis na OIE para diferentes regiões:
O Brasil (50%) tem mais que o triplo da participação renovável da média mundial (14,3%) e quase quatro vezes a dos países da OCDE (13,2%).
Essa vantagem tem uma explicação histórica e geográfica: o Brasil construiu seu parque de geração elétrica principalmente com hidrelétricas (a maior reserva de água doce do mundo), desenvolveu o maior programa de biocombustíveis do planeta (o Proálcool, nos anos 1970), e tem um dos melhores recursos eólicos e solares do mundo — o Nordeste brasileiro tem irradiância solar comparável ao deserto do Saara.
Mas há um contraponto importante. O Brasil tem 50% de renováveis, mas apenas 19% de eletricidade na sua matriz. Por quê? Porque uma parcela enorme das renováveis brasileiras (etanol, biodiesel, biomassa) é queimada diretamente no transporte e na indústria — não vira eletricidade. A eletrificação da economia é o próximo passo.
Conclusão: 3 pontos para fixar
- 50% renovável é excepcional, mas não significa matriz limpa. O Brasil atingiu o marco histórico de 50% de renováveis na OIE em 2024 — muito acima dos 14,3% da média mundial. Mas renováveis no Brasil incluem biomassa da cana e lenha, que emitem CO₂ quando queimadas. A vantagem climática real está na geração elétrica, onde 88,2% vem de fontes limpas com emissão de apenas 59,9 kg CO₂/MWh.
- Apenas 19% da energia primária vira eletricidade — o transporte é o gargalo. O setor de transportes consome 33% de toda a energia final do Brasil, quase toda em petróleo direto. Eletrificar o transporte sobre uma matriz elétrica 88% renovável seria o maior salto de descarbonização disponível para o Brasil — muito mais eficaz do que adicionar mais painéis solares enquanto os carros ainda rodam a gasolina.
- Solar e eólica são a maior transformação da última década. Juntas, saíram de menos de 1% em 2010 para 23,7% da geração elétrica em 2024. A solar cresceu 39,6% só em 2024, com 48.000 MW instalados. Essa curva de crescimento, se mantida, transforma completamente o perfil da matriz elétrica brasileira na próxima década — com impacto direto nos preços da energia e nas emissões nacionais.
Referências Bibliográficas
- EPE — Empresa de Pesquisa Energética — Balanço Energético Nacional 2025: Relatório Síntese, Ano Base 2024. Ministério de Minas e Energia. Rio de Janeiro, maio de 2025. epe.gov.br
- IEA — International Energy Agency — World Energy Balances (2024). Dados de intensidade de carbono e participação de renováveis por país. iea.org
- Our World in Data (OWID) — Energy Mix; Primary Energy Consumption. Hannah Ritchie, Pablo Rosado, Max Roser (2024). ourworldindata.org/energy
- Global Carbon Project — CO₂ emissions dataset. Friedlingstein et al. (2023). Global Carbon Budget 2023. Earth System Science Data.
- ABSOLAR — Dados de capacidade instalada de energia solar fotovoltaica no Brasil (2024). absolar.org.br
- ABEEólica — Dados de capacidade instalada de energia eólica no Brasil (2024). abeeolica.org.br
- Prof. Edson Mosman — mosmanLAB · São Paulo, março de 2026. mosmanlab.com.br