Quando falamos em "transição energética", a palavra eletricidade aparece com frequência. Mas há uma pergunta fundamental que raramente é feita com clareza: qual é, afinal, a participação da eletricidade dentro da matriz energética total?
A resposta surpreende muita gente: em 2024, apenas 17,5% da energia primária consumida no mundo se converteu em eletricidade. O Brasil está um pouco acima, com 19,0%. Os outros 80% são usados de outras formas — como calor industrial, combustível de transporte ou simplesmente perdidos como resíduo térmico nas usinas.
Este artigo analisa essa proporção em detalhe, usando dados reais de 2000 a 2024 do Our World in Data e do Banco Mundial, e discute por que entender esse número é essencial para qualquer análise séria sobre descarbonização.
energia primária (2024)
energia primária (2024)
de 2000 a 2024
em eletrificação (2022)
Uma tendência que cresce — mas devagar
O primeiro dado relevante é que a participação da eletricidade na matriz energética total vem crescendo de forma consistente desde 2000 — mas em ritmo lento. O mundo saiu de 13,8% em 2000 para 17,5% em 2024, um avanço de apenas 3,7 pontos percentuais em 24 anos.
O Brasil segue trajetória similar, com uma vantagem consistente sobre a média mundial ao longo de todo o período. Em 2024, o país atingiu 19,0% — o maior valor histórico da série. Essa diferença positiva em relação ao mundo reflete a expansão recente de energia solar e eólica no mix elétrico brasileiro.
Onde o Brasil se situa no mundo
A comparação entre países revela perfis muito distintos de eletrificação. A tabela abaixo reúne as principais economias de referência com dados de 2022:
| País | Energia primária (TWh) | Eletricidade (TWh) | % elétrica | Renováveis % |
|---|---|---|---|---|
| Noruega | 534 | 145 | 27,3% | 69,6% |
| França | 2.306 | 468 | 20,3% | 13,7% |
| China | 44.516 | 8.849 | 19,9% | 15,2% |
| Brasil | 3.732 | 677 | 18,1% | 47,7% |
| Índia | 10.059 | 1.806 | 18,0% | 9,4% |
| África do Sul | 1.346 | 239 | 17,7% | 3,6% |
| Alemanha | 3.455 | 567 | 16,4% | 20,3% |
| EUA | 26.513 | 4.287 | 16,2% | 10,9% |
| Argentina | 1.001 | 146 | 14,5% | 12,0% |
O Brasil ocupa uma posição intermediária e favorável nessa comparação: está acima de EUA, Alemanha e Argentina, e próximo de China e Índia. O destaque vai para a Noruega, com 27,3% — resultado de décadas de eletrificação do aquecimento residencial e, mais recentemente, da adoção massiva de veículos elétricos.
O caso francês (20,3%) merece atenção: sua elevada participação elétrica é impulsionada pelo nuclear, que responde por quase 68% da geração elétrica do país — conferindo-lhe uma matriz de baixíssimo carbono, mas com dependência concentrada em urânio importado. É um modelo radicalmente diferente do brasileiro.
Para onde vai a energia que o Brasil consome
Para entender por que apenas 18% da energia primária brasileira vira eletricidade, é preciso olhar para onde os outros 82% são direcionados.
O dado mais revelador é o do petróleo consumido diretamente: 37,3% de toda a energia primária brasileira vai para motores a combustão — caminhões, carros, aviões, navios. Esse único setor consome o dobro de toda a eletricidade gerada no país. Se o transporte brasileiro fosse progressivamente eletrificado, com carros e caminhões elétricos alimentados pela matriz renovável nacional, o impacto climático seria imenso.
O crescimento absoluto da eletrificação no Brasil
Embora a participação percentual da eletricidade na matriz seja relativamente estável, o volume absoluto cresceu significativamente. O Brasil gerou 746 TWh de eletricidade em 2024, contra 349 TWh em 2000 — um aumento de mais de 113%.
O gráfico evidencia que a energia não-elétrica — dominada por combustíveis fósseis e biocombustíveis — ainda cresce em termos absolutos. O Brasil consome mais energia total a cada ano, e parte desse crescimento ainda é fóssil. A boa notícia é que a fatia elétrica cresce em ritmo ligeiramente mais rápido, elevando gradualmente o percentual da eletricidade no mix.
O cenário global: uma eletrificação ainda embrionária
No mundo, a situação é ainda mais dependente de combustíveis fósseis. Em 2024, a eletricidade respondeu por 17,5% da energia primária global — subindo lentamente desde os 13,8% de 2000. O volume absoluto de eletricidade gerada no mundo quase dobrou (de 15.279 TWh para 30.938 TWh), mas a energia total também cresceu muito, diluindo o impacto percentual.
A Noruega como modelo: o que significa eletrificar de verdade
Com 27,3% da energia primária convertida em eletricidade, a Noruega está em outro patamar. O país chega a essa marca porque eletrificou progressivamente o aquecimento residencial (quase todas as casas usam bombas de calor ou resistência elétrica), tem uma das maiores frotas de veículos elétricos per capita do mundo, e conta com 70% do mix primário baseado em hidroeletricidade.
Esse modelo mostra que chegar a 25–30% de eletricidade na matriz é tecnicamente viável — mas exige mudança profunda no transporte e no aquecimento, não apenas na geração.
O que os dados revelam
Os 25 anos de dados analisados permitem três conclusões centrais:
- A eletrificação é a chave, mas ainda é minoritária. No Brasil e no mundo, menos de 20% da energia primária vira eletricidade. Os 80% restantes — especialmente o transporte e a indústria — continuam dependentes de combustíveis fósseis e biomassa.
- O Brasil tem uma vantagem estrutural única. Com quase 48% de renováveis na matriz primária e ~85% de eletricidade de baixo carbono, o país está bem posicionado para se beneficiar da eletrificação: cada carro elétrico que circula no Brasil já roda com energia muito mais limpa do que na maioria dos países.
- O gargalo não é a geração — é o uso final. O petróleo consumido diretamente no transporte brasileiro (37% da energia primária) é o dobro de toda a eletricidade gerada. Eletrificar o transporte é, portanto, o maior alavancador de descarbonização disponível para o Brasil neste momento.
Fontes e referências
- Our World in Data (OWID) — CO₂ and Greenhouse Gas Emissions; Energy Mix; Primary Energy Consumption. Hannah Ritchie, Pablo Rosado, Max Roser (2024). ourworldindata.org/energy
- Global Carbon Project — CO₂ emissions dataset via OWID. Friedlingstein et al. (2023). Global Carbon Budget 2023. Earth System Science Data.
- Energy Institute — Statistical Review of World Energy (2024). Dados de consumo energético por fonte e país, via OWID. energyinst.org
- World Bank — World Development Indicators — PIB (PPP e nominal), população, indicadores socioeconômicos. databank.worldbank.org
- United Nations Population Division — World Population Prospects (2024). Via Our World in Data. population.un.org
- IEA — International Energy Agency — World Energy Balances (2024). Dados de referência para balanços energéticos nacionais. iea.org