4
mortes oficiais imediatas pela Síndrome Aguda da Radiação — em menos de 50 dias
249
pessoas com algum grau de contaminação confirmada entre as 112.800 monitoradas
6.000 t
toneladas de lixo radioativo geradas — armazenadas por 180 anos em Abadia de Goiás
Nível 5
na Escala INES — o mesmo nível do acidente de Three Mile Island. Abaixo apenas de Chernobyl e Fukushima (nível 7)

Parte 1 — O Contexto: Como uma Clínica Abandonada Criou a Tragédia

A história do acidente com o Césio-137 começa dois anos antes de setembro de 1987. Em 1985, o Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), clínica especializada no tratamento de câncer localizada no Setor Central de Goiânia, mudou-se para novas instalações. Ao fazer isso, seus médicos — os Drs. Carlos Figueiredo Bezerril e Flamarion Barbosa Goulart — deixaram para trás, no edifício em abandono, um equipamento de radioterapia de modelo Cesapan F-3000. Dentro do aparelho havia uma cápsula de aço inoxidável e chumbo contendo uma fonte radioativa: cloreto de césio-137 (CsCl).

A decisão de abandonar o equipamento sem comunicar a CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) ou a Vigilância Sanitária foi o primeiro elo de uma cadeia de negligências. Entre 1985 e 1987, o edifício foi tomado pelo mato, suas portas e janelas desapareceram. Em maio de 1987, iniciou-se uma demolição irregular do imóvel — que parou por liminar judicial. O prédio ficou em ruínas acessíveis a qualquer pessoa. O aparelho de radioterapia permaneceu lá, sem qualquer sinalização de perigo, por dois anos.

O aparelho de radioterapia: O equipamento era uma fonte de radioterapia de contato do tipo teletherapy unit, fabricada provavelmente nos EUA pelo Oak Ridge National Laboratory. A fonte original tinha atividade de 74 TBq em 1971. Em setembro de 1987, após 16 anos de decaimento natural, ainda possuía 50,9 TBq (1.375 Ci) de atividade — suficiente para emitir dose de 4,56 Gy por hora a 1 metro de distância, acima da dose letal mediana (4 Gy). A cápsula tinha 51 mm de diâmetro e 48 mm de comprimento. Dentro havia 93 gramas de CsCl.

Parte 2 — A Física do Césio-137: Por que é tão Perigoso

Para entender a gravidade do que aconteceu em Goiânia, é preciso entender a física do elemento que causou a tragédia.

O Césio-137 (¹³⁷Cs) é um isótopo radioativo artificial do elemento césio — um metal alcalino mole e dourado que não existe na natureza em forma radioativa. Ele é produto da fissão nuclear do urânio-235 e do plutônio-239 em reatores nucleares e explosões atômicas. Junto com o Iodo-131 e o Estrôncio-90, o Césio-137 é um dos isótopos de fissão mais preocupantes em termos de saúde pública.

⚛️ Física do Decaimento Radioativo do Cs-137

O césio-137 decai por emissão beta para bário-137 metaestável, que emite radiação gama:

¹³⁷Cs → ¹³⁷Ba* + β⁻ → ¹³⁷Ba + γ (661,7 keV)

A radiação gama de 661,7 keV é altamente penetrante — atravessa paredes finas, roupas e tecidos. O chumbo e o concreto denso são necessários para blindagem efetiva.

30,17 anos
Meia-vida física do Cs-137 — metade da atividade da fonte de Goiânia ainda persistirá em 2017, um quarto em 2047
661,7 keV
Energia do fóton gama emitido — suficiente para ionizar tecidos e quebrar ligações no DNA
~180 anos
Tempo estimado para que os rejeitos de Goiânia percam sua periculosidade a níveis seguros
4,56 Gy/h
Taxa de dose a 1 metro da fonte original — acima da dose letal mediana (4 Gy) em uma única hora

O CsCl (cloreto de césio) é especialmente perigoso porque é um sal altamente solúvel em água, de comportamento químico similar ao cloreto de potássio (KCl). No corpo humano, o Cs-137 se comporta como o potássio — distribui-se pelos tecidos musculares e não se concentra em um único órgão como o iodo na tireoide, o que dificulta sua remoção e torna a contaminação interna especialmente grave. A meia-vida biológica do Cs-137 no organismo adulto é de 50 a 150 dias.

Outro fator crítico: o CsCl é higroscópico — absorve umidade do ar. Isso faz com que o pó adira facilmente à pele, roupas, cabelos e superfícies. Uma vez disperso, contamina tudo que toca. Em Goiânia, fragmentos viajaram em bolsos de calça, embrulhados em papel, carregados nas palmas das mãos de crianças.

Por que brilhava azul? O intenso brilho azul que fascinou Devair Ferreira e dezenas de outras pessoas provavelmente era causado pela ionização das moléculas de ar ao redor do material radioativo — um fenômeno às vezes confundido com efeito Cherenkov. O mesmo brilho azul foi observado em 1988 no Oak Ridge National Laboratory, EUA, durante o descapsulamento de outra fonte de Cs-137. A IAEA, em seu relatório de 1988, admitiu que o mecanismo exato ainda não era completamente compreendido. O que é certo: aquele brilho mágico era radiação ionizante em ação — e cada pessoa que se aproximava fascínada estava sendo irradiada.

Parte 3 — Cronograma Completo: 46 Dias que Mudaram Goiânia

13 Set
1987
(Sáb)
Início
Wagner e Roberto retiram o aparelho do IGR
Wagner Mota Pereira, 20 anos, e Roberto dos Santos Alves, 21, invadem as ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia no Setor Central. Com marretas e talhadeiras, removem o cabeçote rotativo do aparelho de radioterapia — a parte que continha a fonte radioativa. Usando um carrinho de mão, transportam a peça de 98 kg até a casa de Roberto, na Rua 57. Naquela mesma noite, ambos sentem náuseas e vômitos, atribuídos à alimentação.
14–17 Set
1987
Dispersão
Primeiros sintomas e tentativas de desmontagem
Wagner e Roberto tentam desmontar o aparelho para recuperar o chumbo. Roberto desenvolve inchaço no rosto e na mão direita, vômitos persistentes e perda de dedos da mão — sintomas de contaminação severa. Procura a emergência de um hospital local, onde é diagnosticado como alergia. A taxa de dose a 1 metro do aparelho intacto era de 4,56 Gy/h — horas de exposição já seriam letais.
18 Set
1987
(Sex)
Dispersão
Devair compra a peça — e encontra o brilho azul
Roberto vende os fragmentos do aparelho a Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho no Setor Aeroporto, por cerca de 25.000 cruzados. À noite, Devair nota um intenso brilho azul vindo da cápsula perfurada. Fascinado, acredita ter encontrado algo precioso ou sobrenatural. Leva a cápsula para dentro de casa. Nos dias seguintes, convida familiares e vizinhos para ver o "pó mágico".
18–24 Set
1987
Dispersão
O pó se espalha pela cidade
Devair distribui fragmentos do pó azul para amigos e familiares como se fosse uma curiosidade especial. Um amigo (identificado na documentação da IAEA como "EF1") libera grãos adicionais da cápsula com uma chave de fenda. O irmão de Devair, Ivo Ferreira, leva fragmentos embrulhados em papel para sua casa no Setor Norte-Ferroviário. Outro irmão, Odesson, também tem contato direto. A tia de Leide, Luiza Odete, é chamada pela sobrinha para ver a "pedrinha iluminante". O pó já contaminou pelo menos 7 locais diferentes da cidade.
24 Set
1987
(Qui)
Tragédia
Leide das Neves ingere o césio
Leide das Neves Ferreira, 6 anos, filha de Ivo, brinca com o pó azul brilhante espalhado sobre a mesa da sala. Sem lavar as mãos, come um ovo cozido que a mãe preparou para o jantar, ingerindo partículas radioativas. 15 minutos depois, começa a vomitar. Ela recebe a maior dose de radiação de todo o acidente — contaminação interna severa por ingestão direta. Na mesma data, sua tia Luiza Odete tem o pescoço marcado por um pedaço de papel contaminado que o pai brincalhão passou em seu pescoço — lesão que deixaria cicatrizes permanentes.
25–27 Set
1987
Sintomas
Surto de doenças inexplicadas
Múltiplas pessoas do círculo de Devair apresentam sintomas simultâneos: vômitos, diarreia, tontura, queimaduras na pele, queda de cabelo. Os médicos locais não associam os sintomas à radiação — tratam como intoxicação alimentar, suspeita alimentada por uma feijoada com Coca-Cola que alguns tinham comido juntos. Odesson, irmão de Devair, trabalha como motorista de ônibus contaminado, transportando cerca de 1.000 passageiros por dia. O número de locais contaminados na cidade continua crescendo silenciosamente.
28 Set
1987
(Dom)
Primeira Suspeita
Maria Gabriela leva a cápsula à Vigilância Sanitária
Maria Gabriela Ferreira, 37 anos, esposa de Devair, instigada por uma vizinha, recolhe os fragmentos da cápsula em uma sacola plástica e os leva até a Divisão de Vigilância Sanitária da Secretaria Estadual de Saúde. A sacola é deixada no pátio do órgão — onde permanece por um dia inteiro, contaminando o local e as pessoas que passam por ali. A carga que Maria Gabriela carregou a expõe a uma dose adicional ao longo do caminho. Ela se tornará uma das vítimas fatais — mas também a heroína que impediu uma catástrofe ainda maior.

Nota: A história de Maria Gabriela foi documentada pelo G1 em 2012.
29 Set
1987
(Seg)
Identificação
Walter Mendes identifica a radiação a 80 metros
O físico Walter Mendes Ferreira, 29 anos, funcionário do Departamento de Física Médica da Secretaria Estadual de Saúde, é convocado para examinar o "material suspeito". Usando um cintilômetro emprestado de uma agência de prospecção de urânio, detecta radiação ionizante a 80 metros de distância — o aparelho literalmente "grita" antes de se aproximar. Reconhece imediatamente a gravidade: impede que os bombeiros joguem o material no rio, ordena evacuação imediata da área. Na mesma data, a CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) é oficialmente notificada e aciona a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica).

Walter Mendes contou sua história ao IPEN em 2024. Ele é o herói real que inspirou o personagem de Johnny Massaro na série da Netflix.
30 Set
1987
(Ter)
Resposta
Operação Césio-137 — começa a maior operação de emergência nuclear civil do Brasil
Técnicos da CNEN chegam a Goiânia. O físico José de Júlio Rozental coordena a operação. Na madrugada, o ferro-velho de Devair é interditado. Devair, seus familiares e vizinhos são retirados em ônibus da Polícia Militar. O Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira é designado como centro de triagem. A "Operação Césio-137" é deflagrada, envolvendo CNEN, FURNAS, NUCLEBRÁS, Defesa Civil, Hospital Naval Marcílio Dias, Secretaria Estadual de Saúde de Goiás e dezenas de outras instituições.
Out 1987
(todo o mês)
Triagem
112.800 pessoas monitoradas no Estádio Olímpico
O Estádio Olímpico torna-se o maior posto de triagem radiológica da história do Brasil. Filas imensas se formam — pessoas aterorizadas aguardam para serem medidas com contadores Geiger. 112.800 pessoas passam pelos exames. A metodologia: banho com sabão neutro e ácido acético (vinagre), seguido de medição. Regiões de maior contaminação tratadas com dióxido de titânio e lanolina, mais pedra-pomes. 249 apresentam contaminação, 129 precisam de acompanhamento médico, 50 têm contaminação interna, 14 são transferidos ao estado grave para o Hospital Naval Marcílio Dias no Rio de Janeiro.
23 Out
1987
Mortes
Morrem Leide das Neves (6 anos) e Maria Gabriela (37 anos)
Leide das Neves Ferreira morre no Hospital Naval Marcílio Dias, Rio de Janeiro, de "septicemia e infecção generalizada". A criança havia sido encontrada isolada em um quarto do hospital — a equipe médica tinha medo de se aproximar dela. Leide havia recebido dose estimada em 6,0 Gy — a maior de todas as vítimas. Seu corpo é enterrado no cemitério de Goiânia em caixão especial de fibra de vidro forrado de chumbo (700 kg) para conter a radiação. O enterro provoca um tumulto com mais de 2.000 pessoas aterrorizadas tentando impedir o sepultamento.

No mesmo dia morre Maria Gabriela Ferreira, 37 anos, de falência múltipla de órgãos. A heroína que levou o material à vigilância sanitária — impedindo que o pó continuasse se espalhando — não sobreviveu à dose que havia recebido: 5,7 Gy.

Metrópoles documentou a história de todas as vítimas em 2026.
27 Out
1987
Morte
Morre Israel Batista dos Santos (20 anos)
Israel Batista dos Santos, funcionário do ferro-velho de Devair, havia trabalhado diretamente com a remoção do chumbo da fonte radioativa. Dose estimada: 4,5 Gy. Morre de hemorragia interna e falência dos órgãos. Era o responsável por grande parte do manuseio direto da fonte.
28 Out
1987
Morte
Morre Admilson Alves de Souza (18 anos)
Admilson Alves de Souza, 18 anos, também funcionário do ferro-velho. Havia manipulado a fonte radioativa nos primeiros dias após a compra. Dose estimada: 5,3 Gy. Desenvolveu lesão pulmonar, hemorragia interna e dano cardíaco. É a quarta e última morte imediata oficialmente atribuída ao acidente.
Out–Dez
1987
Limpeza
Descontaminação de Goiânia — 83 dias de operação
Entre 30 de setembro e 21 de dezembro, 40 técnicos da CNEN trabalham na descontaminação. Sete casas são demolidas. Quarenta e uma famílias são evacuadas. O solo é removido de múltiplos locais. Telhados são aspirados a vácuo. Dois telhados são completamente removidos. Objetos pessoais, brinquedos, fotografias, documentos, roupas, móveis e animais de estimação contaminados são confiscados e destruídos. 6.000 toneladas de lixo radioativo são geradas, acondicionadas em 14 contêineres com 1.200 caixas e 2.900 tambores, concretados hermeticamente.
Dez 1987
Institucional
Criação da FUNLEIDE e início do monitoramento de longo prazo
O governo do Estado de Goiás cria a Fundação Leide das Neves Ferreira (FUNLEIDE) para acompanhar permanentemente os efeitos do acidente sobre as vítimas. São definidos grupos de monitoramento conforme normas internacionais. A fundação publica anualmente relatórios de saúde dos sobreviventes. Em 1988, começa a construção do Depósito Definitivo de Rejeitos Radioativos em Abadia de Goiás, a 23 km de Goiânia.
1994
Morte tardia
Morre Devair Ferreira — o homem que abriu a cápsula
Devair Alves Ferreira, que havia recebido 7 Gy — a maior dose entre os sobreviventes imediatos — morre 7 anos depois do acidente. Após sobreviver à Síndrome Aguda da Radiação, desenvolveu depressão profunda, alcoolismo e cirrose hepática. Carregou o peso da culpa pela tragédia até o fim da vida. Morreu aos 43 anos.

A história de Devair foi documentada pela Aventuras na História em 2026.
2012
25 anos
104 mortes associadas ao acidente — segundo a Associação das Vítimas
Ao completar 25 anos, a Associação das Vítimas do Césio-137 afirma que 104 pessoas morreram em decorrência da contaminação — de câncer, doenças cardíacas e outras complicações relacionadas à exposição à radiação. Cerca de 1.600 pessoas foram afetadas diretamente. 1.141 sobreviventes ainda são acompanhados pelo Centro de Assistência aos Radioacidentados (CARA), vinculado à Secretaria de Saúde de Goiás.

"Perguntam até se brilhamos", disse uma vítima à IstoÉ em 2012.
Mar 2026
Hoje
Netflix lança "Emergência Radioativa" — e o debate volta ao centro
Em março de 2026, a Netflix estreia a minissérie "Emergência Radioativa", dirigida por Fernando Coimbra, com Johnny Massaro no papel do físico Walter Mendes. A série reacende o debate sobre memória, responsabilização e as vítimas que ainda aguardam reajuste de pensões — sem correção há 7 anos. A Assembleia Legislativa de Goiás aprova em abril de 2026 o reajuste das pensões especiais para as vítimas.

CNN Brasil publicou cobertura completa em 2026.

Parte 4 — As Vítimas: Doses, Destinos e Sequelas

A IAEA, em seu relatório oficial de 1988 (The Radiological Accident in Goiânia), documentou com precisão as doses recebidas pelas principais vítimas, estimadas por dosimetria citogenética (aberrações cromossomiais) e contador de corpo inteiro. Abaixo estão os perfis das principais pessoas afetadas.

Leide das Neves Ferreira
6 anos · filha de Ivo Ferreira
6,0 Gy
Maior dose de todo o acidente. Contaminação interna por ingestão direta de partículas ao comer com as mãos contaminadas. Isolada em quarto de hospital — a equipe médica temia se aproximar. Inchaço generalizado, queda de cabelo, dano renal e pulmonar, hemorragia interna. Enterrada em caixão de chumbo e fibra de vidro (700 kg).
† 23 Out 1987 — 40 dias de sobrevida
Maria Gabriela Ferreira
37 anos · esposa de Devair
5,7 Gy
Heroína que levou o material à Vigilância Sanitária — carregou a sacola com a cápsula por dois quarteirões. Adoeceu 3 dias após o contato. Falência múltipla de órgãos. Tia de Leide. Considerada a pessoa que evitou que a tragédia fosse ainda maior.
† 23 Out 1987 — 25 dias de sobrevida
Admilson Alves de Souza
18 anos · funcionário do ferro-velho
5,3 Gy
Manipulou a fonte radioativa diretamente ao desmontar o aparelho. Desenvolveu lesão pulmonar, hemorragia interna e dano cardíaco grave. Síndrome Aguda da Radiação grau IV.
† 28 Out 1987 — 45 dias de sobrevida
Israel Batista dos Santos
20 anos · funcionário do ferro-velho
4,5 Gy
Responsável pela remoção do chumbo da fonte. Contaminação externa e interna severa. Hemorragia e infecção generalizada. Síndrome Aguda da Radiação grau III-IV.
† 27 Out 1987 — 44 dias de sobrevida
Devair Alves Ferreira
36 anos · dono do ferro-velho
7,0 Gy
Maior dose absoluta registrada — acima da DL₅₀ (dose letal para 50% dos expostos). Sobreviveu por razões ainda não completamente explicadas. Perdeu cabelo, sofreu danos em múltiplos órgãos. Depressão severa, alcoolismo, câncer induzido por radiação.
† 1994 — cirrose e sequelas da radiação
Odesson Alves Ferreira
32 anos · irmão de Devair
~4,5 Gy
Trabalhou 8 dias como motorista de ônibus contaminado — transportando ~1.000 passageiros/dia. Internado em isolamento por meses. Perdeu a palma da mão (reconstruída cirurgicamente) e parte do dedo indicador (amputado). Ativista pelos direitos das vítimas até hoje.
Sobrevivente · sequelas permanentes
Wagner Mota Pereira
20 anos · catador
~4,5 Gy
Um dos dois catadores que retiraram o aparelho do IGR. Exposição direta desde o dia 13 de setembro. Desenvolveu inchaço, queimaduras e perda de tecidos na mão. Sobreviveu após tratamento intensivo.
Sobrevivente · sequelas permanentes
Roberto dos Santos Alves
21 anos · catador
~3,0 Gy
O segundo catador. Exposição intensa nos primeiros dias. Perdeu o antebraço direito por amputação — consequência das radiolesões. Foi o mais cético sobre a origem dos problemas de saúde, acreditando inicialmente que eram causados pela alimentação.
Sobrevivente · amputação do antebraço
Doses de Radiação Recebidas pelas Principais Vítimas (Gy)
Fonte: IAEA — The Radiological Accident in Goiânia (1988) · A DL₅₀ (dose letal para 50% da população sem tratamento médico) é ~4 Gy · Devair recebeu a maior dose e sobreviveu graças a tratamento intensivo

Parte 5 — A Síndrome Aguda da Radiação: A Física dos Danos Biológicos

O que acontece com um corpo humano exposto a doses maciças de radiação ionizante? A resposta está na Síndrome Aguda da Radiação (SAR) — o conjunto de sintomas que ocorre quando o organismo inteiro ou grande parte dele é exposto a uma dose alta de radiação em curto período de tempo.

A radiação gama do Cs-137 penetra profundamente no corpo, ionizando moléculas ao longo de seu caminho. O mecanismo de dano é duplo: dano direto ao DNA (quebras de fita simples e dupla na molécula) e dano indireto por radicais livres (a radiação ioniza moléculas de água, gerando radicais OH• altamente reativos que atacam o DNA). As células mais sensíveis são aquelas que se dividem mais rapidamente: células da medula óssea (precursoras de sangue), epitélio intestinal e células reprodutivas.

Síndrome Aguda da Radiação — Efeitos por Faixa de Dose (Gy)
As vítimas fatais de Goiânia receberam doses entre 4,5 e 7,0 Gy — na faixa de mortalidade quase certa sem transplante de medula óssea

No caso de Goiânia, as vítimas experimentaram as fases clássicas da SAR:

Fase prodrômica (horas a 2 dias): Náuseas, vômitos, diarreia, fadiga, tontura. Nas vítimas com doses acima de 4 Gy, esses sintomas aparecem em menos de 2 horas. Nas doses de Leide (~6 Gy) e Devair (~7 Gy), em menos de 30 minutos.

Período de latência (1–3 semanas): Melhora aparente dos sintomas enquanto a medula óssea e o epitélio intestinal continuam sofrendo depleção celular. Este período criou a falsa impressão de recuperação em algumas das vítimas — e foi o período em que muitos continuaram circulando pela cidade, contaminando mais locais.

Fase manifesta (2–4 semanas): Quando a depleção da medula óssea se torna crítica. Queda dramática de leucócitos e plaquetas, hemorragias internas, infecções oportunistas impossíveis de combater sem imunidade. Queda de cabelo (epítolio folicular destruído). Radiodermatite severa — queimaduras profundas sem fonte de calor externa.

Desfecho: Para doses acima de 4–6 Gy sem transplante de medula óssea, a mortalidade é de 50–100%. O transplante de medula foi tentado em algumas das vítimas mais graves de Goiânia — sem sucesso, em parte porque a contaminação interna continuava liberando radiação mesmo após o transplante.

Por que Devair sobreviveu a 7 Gy? Devair recebeu a maior dose estimada de todas as vítimas — acima da DL₁₀₀ (dose letal para 100% sem tratamento). Sua sobrevivência imediata provavelmente se deve a uma combinação de fatores: a exposição foi parcialmente fracionada (não instantânea), o tratamento intensivo no Hospital Naval Marcílio Dias incluiu cuidados de suporte rigorosos e antibióticoterapia de amplo espectro, e houve variabilidade biológica individual na radiorresistência. O corpo humano apresenta variação significativa na resposta à radiação — alguns indivíduos sobrevivem a doses que matariam outros.

Parte 6 — A Descontaminação: Números, Custos e o Lixo que Dura 180 Anos

6.000 t
toneladas de lixo radioativo gerado pela descontaminação
14
contêineres fechados hermeticamente com concreto para armazenamento
1.200
caixas de metal dentro dos contêineres
2.900
tambores de aço nos contêineres
7
casas completamente demolidas
41
famílias evacuadas permanentemente de suas residências
40
técnicos da CNEN envolvidos na operação de descontaminação
83 dias
duração da operação de descontaminação (30/set a 21/dez/1987)
180 anos
tempo estimado para que os rejeitos percam periculosidade a níveis seguros
Abadia de Goiás
município de destino, a 23 km de Goiânia — Parque Estadual Telma Ortegal
Triagem das 112.800 Pessoas Monitoradas — Resultado dos Exames
Fonte: CNEN / Secretaria de Saúde de Goiás (1988) · 249 pessoas com algum nível de contaminação; 4 mortes imediatas

Os Custos: um Cálculo Incompleto

Estimar o custo total do acidente é uma tarefa complexa porque inclui dimensões que a contabilidade convencional não captura facilmente. Os custos diretos documentados incluem:

Descontaminação imediata (1987): A operação envolvendo 40 técnicos da CNEN, equipamentos especializados, construção do depósito provisório e depois definitivo em Abadia de Goiás teve custos estimados em dezenas de milhões de cruzados (equivalente a vários milhões de dólares em valores de 1987). Documentos judiciais confirmam que o Ministério Público solicitou indenizações de R$ 2 milhões para a União Federal e R$ 1 milhão para a CNEN a título de dano ambiental difuso — valores reconhecidamente simbólicos diante da magnitude real do dano.

Monitoramento contínuo (1987–hoje): A FUNLEIDE/CARA acompanha sobreviventes desde 1987. O município de Abadia de Goiás recebe R$ 70 mil anuais do governo federal para custear a manutenção do depósito de rejeitos — valor considerado insuficiente e inalterado há mais de uma década.

Pensões vitalícias: A Lei Estadual nº 10.977/1989 instituiu pensões especiais para as vítimas. Em 2025, os sobreviventes recebiam R$ 954 mensais — sem reajuste há 7 anos. Em abril de 2026, a Assembleia Legislativa de Goiás aprovou o reajuste, mas os valores ainda são considerados inadequados pelas associações de vítimas.

Impacto econômico indireto: Este é o custo mais devastador e menos quantificado. O turismo goiano sofreu queda de 50% nas vendas em hotéis e comércio. Voos para Goiânia chegaram a ser impedidos em alguns estados. Imóveis na região do acidente perderam ~50% do valor — desvalorização que persiste décadas depois. A economia do estado de Goiás sofreu com o estigma de que todos os seus produtos poderiam estar contaminados.

Linha do Tempo das Mortes Imediatas (dias após exposição inicial — 13/Set/1987)
As 4 mortes ocorreram entre 40 e 45 dias após a exposição inicial — dentro do padrão esperado da SAR grau III-IV · Devair recebeu dose maior mas sobreviveu por mais tempo

Parte 7 — A Escala INES e o Lugar de Goiânia na História dos Acidentes Nucleares

O acidente com o Césio-137 em Goiânia foi classificado como Nível 5 na Escala Internacional de Eventos Nucleares e Radiológicos (INES) — criada justamente após Goiânia e Chernobyl para padronizar a comunicação de gravidade de acidentes. A escala vai de 0 a 7.

0Desvio
1Anomalia
2Incidente
3Inc. sério
4Acid. local
5GOIÂNIA
6Acid. grave
7Chernobyl
Comparação: Maiores Acidentes Radiológicos da História — Escala INES e Vítimas Imediatas
Goiânia é o maior acidente radiológico fora de usinas nucleares da história · Chernobyl e Fukushima são os únicos nível 7 da escala INES

O que torna Goiânia único na escala INES não é apenas a classificação, mas o contexto: foi o único acidente Nível 5 que ocorreu em ambiente urbano denso, fora de qualquer instalação nuclear, causado por uma fonte órfã (radiological orphan source) — um equipamento radioativo abandonado sem controle. Foi esse aspecto que levou a IAEA a usá-lo como caso-estudo central para o desenvolvimento de protocolos internacionais de controle de fontes radioativas.

Parte 8 — Responsabilidade e Consequências Jurídicas

A tragédia expôs uma cadeia de negligências que começou anos antes de setembro de 1987. As responsabilidades foram amplas — e as punições, brandas.

Os médicos do IGR: Os Drs. Carlos Figueiredo Bezerril e Flamarion Barbosa Goulart abandonaram a fonte radioativa sem comunicar à CNEN. Eles foram os principais réus criminais. As penas aplicadas foram brandas diante da magnitude do dano — condenações entre 2 e 3 anos de reclusão, com benefícios.

A CNEN: A Comissão Nacional de Energia Nuclear falhou em fiscalizar o destino do equipamento após o IGR mudar de endereço. Em ação civil, foi condenada a pagar R$ 1 milhão por danos difusos — valor considerado simbólico por especialistas em responsabilidade civil ambiental.

O IPASGO: O Instituto de Previdência e Assistência Social do Estado de Goiás, que havia adquirido o imóvel judicialmente e iniciado sua demolição, também foi responsabilizado — por permitir o estado de abandono e a demolição que deixou o equipamento acessível.

A União e o Estado de Goiás escaparam de punições — a Justiça alegou falta de envolvimento direto e prescrição de pedidos. O resultado prático: as indenizações às vítimas foram fragmentadas, tardias e insuficientes.

O legado legal: O acidente levou o Brasil a criar uma "cultura de radioproteção que não existia até então", segundo estudiosos do tema. Houve reformulação completa das normas de controle e descarte de fontes radioativas. Atualmente, existem mais de 9.600 fontes radioativas em uso no Brasil — em hospitais, clínicas, indústrias e usinas — sujeitas a controle mais rigoroso. Mas especialistas alertam que lacunas regulatórias persistem décadas depois.

Parte 9 — O Legado: O Que Goiânia Ensinou ao Mundo

O acidente de Goiânia se tornou o caso de estudo mais importante da história da radioproteção em ambiente urbano. A IAEA publicou seu relatório oficial em 1988 — disponível gratuitamente para download — e usou o caso para reformular protocolos internacionais.

1. O conceito de "fonte órfã": Goiânia tornou o mundo consciente do perigo das fontes radioativas abandonadas — equipamentos médicos, industriais e de pesquisa descartados sem controle. A IAEA estimou, antes de Goiânia, que havia centenas de fontes órfãs no mundo. Após o acidente, programas internacionais de recuperação de fontes órfãs foram criados em dezenas de países.

2. A criação da Escala INES: A Escala Internacional de Eventos Nucleares e Radiológicos foi desenvolvida diretamente como resposta a Goiânia e Chernobyl — para padronizar a comunicação de gravidade de acidentes ao público e às autoridades.

3. Protocolos de emergência radiológica: O Brasil passou a ter um sistema nacional de emergência radiológica baseado nas lições de 1987. O Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO), em Abadia de Goiás, foi criado para monitorar permanentemente os rejeitos e coordenar resposta a futuros incidentes.

4. O estigma e a dimensão social: Goiânia ficou marcada por anos como "a cidade radioativa". Moradores que viajavam tinham seus carros danificados e eram hostilizados. O jornalista Weber Borges, que cobriu o acidente pela TV Goyá/SBT, escreveu o livro "Eu também sou vítima" relatando ter perdido o emprego por denunciar o estigma nacional. A IAEA classifica o estigma social como um dos grandes impactos de acidentes radiológicos — frequentemente mais devastador que os danos físicos diretos para a maioria da população.

5. As vítimas que esperam: Em 2026, quase 40 anos depois, 1.141 sobreviventes ainda são acompanhados medicamente. As pensões não eram reajustadas há 7 anos até a aprovação de ajuste pela ALEGO em abril de 2026. A reportagem do Metrópoles "Memórias Radioativas" documenta com precisão o sofrimento que persiste.

Decaimento da Atividade da Fonte — Cs-137 de Goiânia (1971–2077)
Meia-vida de 30,17 anos · Em 2017 (30 anos), a fonte ainda tinha ~50% da atividade original · Em 2077 restará ~12% · O material em Abadia de Goiás permanece perigoso até ~2167

O que Goiânia Nos Ensina sobre Radiação, Ciência e Responsabilidade

📚 Fontes Técnicas e Científicas