Neste artigo
  1. A arquitetura da Agenda 2030: 17 objetivos, 169 metas, 231 indicadores
  2. Evolução histórica: o que os dados desde 2000 revelam
  3. Os ODS fizeram diferença? O antes e depois de 2015
  4. Radiografia global em 2026: quem está no caminho e quem regrediu
  5. Eram otimistas demais — ou o mundo mudou?
  6. O que seria necessário para cumprir os ODS
  7. O Brasil em foco: um G20 que lidera o discurso e negocia a execução
  8. Conclusão

Em setembro de 2015, na sede da ONU em Nova York, 193 chefes de Estado assinaram um dos acordos mais ambiciosos da história da diplomacia multilateral. A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável estabelecia 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), 169 metas específicas e 231 indicadores mensuráveis — tudo para ser cumprido em 15 anos. O prazo era 1º de janeiro de 2030.

Estamos em 2026. Faltam quatro anos. E o veredicto é duro: nenhum dos 17 ODS está no caminho certo a nível global. Apenas 17% das metas apresentam trajetória adequada. Quase metade avança lentamente demais. E 18% — quase 1 em cada 5 — estão em regressão: estão piores hoje do que em 2015, quando os objetivos foram adotados.

Isso não significa que nada melhorou. Significa que melhorou menos do que seria necessário, de forma mais desigual do que se esperava, e em circunstâncias muito mais adversas do que os redatores da Agenda 2030 poderiam antecipar. Uma pandemia global, a reaceleração de guerras, a crise climática saindo do papel para os noticiários diários, e — em 2025 — a retirada dos Estados Unidos da cooperação multilateral fizeram da Agenda 2030 um documento sob permanente revisão da realidade.

Este artigo não é um obituário. É um balanço honesto, com dados históricos, gráficos de evolução temporal e uma análise crítica da posição do Brasil — o melhor colocado entre os países do G20 no ranking SDG 2025, mas ainda com lacunas estruturais profundas que nenhum slogan diplomático resolve.

17%
das 169 metas globais no caminho certo (SDSN 2025)
48%
das metas avançando lentamente demais
18%
das metas em regressão desde 2015
25º
posição do Brasil no SDG Index 2025 — melhor do G20
US$ 4 tri
lacuna anual de financiamento para atingir os ODS
193
países signatários — exceto EUA que declarou oposição em 2025

A arquitetura da Agenda 2030: 17 objetivos, 169 metas, 231 indicadores

A Agenda 2030 não nasceu do nada. Ela é a continuação e expansão dos Objetivos do Milênio (ODM), adotados em 2000 para o período 2000–2015. Os ODM eram 8 objetivos com foco quase exclusivo nos países em desenvolvimento: erradicar pobreza extrema, reduzir mortalidade infantil, combater HIV/AIDS. Tinham escopo mais estreito, mas foram mais bem cumpridos — justamente porque eram menos abrangentes e contavam com financiamento concentrado.

Os ODS são outra ordem de grandeza. São 17 objetivos que se aplicam a todos os países, ricos e pobres. Incluem desde a erradicação da pobreza (ODS 1) até a ação climática (ODS 13), passando por igualdade de gênero (ODS 5), cidades sustentáveis (ODS 11) e parcerias globais (ODS 17). A estrutura reflete a compreensão de que desenvolvimento, sustentabilidade ambiental e equidade social são interdependentes — não é possível atacar um sem os outros.

ODS Nome Grupo temático Nº de metas Status global 2026
1Erradicação da pobrezaSocial7Lento
2Fome zero e agricultura sustentávelSocial8Regressão
3Saúde e bem-estarSocial13Parcial
4Educação de qualidadeSocial10Lento
5Igualdade de gêneroSocial9Regressão
6Água potável e saneamentoSocial/Ambiental8Moderado
7Energia limpa e acessívelEnergia5Moderado+
8Trabalho decente e crescimento econômicoEconômico12Lento
9Indústria, inovação e infraestruturaEconômico8Bom
10Redução das desigualdadesSocial10Regressão
11Cidades e comunidades sustentáveisUrbano10Lento
12Consumo e produção responsáveisAmbiental11Lento
13Ação contra a mudança climáticaAmbiental5Regressão
14Vida na águaAmbiental10Regressão
15Vida terrestreAmbiental12Regressão
16Paz, justiça e instituições eficazesGovernança16Regressão
17Parcerias e meios de implementaçãoGovernança19Lento

Fontes: UN DESA (SDG Report 2025); SDSN Sustainable Development Report 2025 (Sachs et al.)

Os indicadores são classificados em três níveis de maturidade metodológica. O Tier I reúne indicadores com metodologia consolidada e dados regularmente disponíveis — são a minoria dos 231. O Tier II tem metodologia definida, mas dados escassos ou irregulares — a maioria. O Tier III engloba indicadores cuja metodologia ainda está em desenvolvimento. Essa classificação é politicamente relevante: sem dados confiáveis, não há pressão por resultados.

Evolução histórica: o que os dados desde 2000 revelam

Para entender onde estamos, precisamos ver de onde viemos. Os gráficos a seguir mostram a evolução de indicadores-chave desde 2000 — bem antes dos ODS —, com a linha de adoção dos objetivos (2015) e a meta para 2030 claramente marcadas. O objetivo é responder a uma pergunta fundamental: os ODS aceleraram o progresso, ou apenas documentaram uma tendência que já existia?

ODS 1 — Erradicação da Pobreza: % da população mundial abaixo de US$ 2,15/dia (PPC)
Fonte: Banco Mundial / ONU · Linha vermelha tracejada = meta ODS 1 (≤3%) · Linha vertical = adoção dos ODS (2015) · Projeção pós-2023 baseada nas tendências atuais

A linha de pobreza foi revisada pelo Banco Mundial de US$1,90 para US$2,15/dia (PPC 2017) em 2022. Os dados anteriores foram retroativamente recalibrados.

O declínio da pobreza extrema entre 2000 e 2015 foi real e expressivo — de cerca de 28% para 10% da população mundial. Mas esse progresso foi dominado por um único país: a China. Quando se remove a China da conta, a redução é substancialmente menor, especialmente na África Subsaariana. A pandemia de COVID-19 reverteu cinco anos de progresso em dois: em 2020, pela primeira vez desde os anos 1990, o número absoluto de pessoas em pobreza extrema aumentou.

ODS 3 — Mortalidade Infantil (<5 anos) e Mortalidade Materna: evolução global 2000–2026
Fonte: UNICEF / OMS / ONU · Mortalidade infantil em óbitos por 1.000 nascidos vivos (eixo esquerdo) · Mortalidade materna por 100.000 nascidos vivos (eixo direito) · Meta ODS 3: <25 infantil, <70 materna

O ODS 3 é onde os números são mais animadores. A mortalidade infantil caiu de 77 óbitos por 1.000 nascidos vivos em 2000 para cerca de 37 em 2023 — uma redução de mais de 50%. A mortalidade materna também caiu significativamente. Intervenções relativamente simples — vacinas, reidratação oral, antibióticos, pré-natal — têm alto impacto e custo relativamente baixo. Este é o argumento mais forte de que cooperação multilateral funciona quando bem direcionada.

ODS 7 — Acesso à Energia e Participação de Renováveis: evolução global 2000–2026
Fonte: IEA / IRENA / ONU · Acesso à eletricidade em % da população mundial (eixo esquerdo) · Participação de renováveis no mix elétrico global (eixo direito) · Metas ODS 7: 100% acesso; duplicar participação de renováveis

O ODS 7 é a história de sucesso mais clara — e também a mais ambígua. O acesso à eletricidade avançou de 78% em 2000 para 91,7% em 2023. Quarenta e cinco países atingiram acesso universal. As energias renováveis tornaram-se a fonte de mais rápido crescimento no mundo, e estão projetadas para superar o carvão como maior fonte de geração elétrica global em meados desta década.

A ambiguidade: 3 a 4% da população mundial sem eletricidade representam 600–800 milhões de pessoas, concentradas na África Subsaariana — exatamente onde o ritmo de progresso é mais lento. E o crescimento das renováveis, embora espetacular, não é rápido o suficiente para compensar o crescimento da demanda global por energia, que continua dependendo de combustíveis fósseis em mais de 80% da matriz primária.

ODS 10 — Desigualdade: Coeficiente de Gini médio global e por grupo de países, 2000–2026
Fonte: Banco Mundial / SDSN · Gini = 0 (igualdade perfeita) a 1 (desigualdade máxima) · Linha tracejada = tendência pós-COVID · Países classificados por renda segundo o Banco Mundial

O ODS 10 (redução das desigualdades) é talvez o mais difícil de medir e o mais politicamente sensível. O coeficiente de Gini médio global mostrou uma leve tendência de queda entre 2000 e 2019 — mas a crise do COVID reverteu esse progresso com força. Mais importante: a desigualdade entre países (países ricos vs. pobres) permanece enorme e tem piorado. O crescimento global das últimas décadas foi profundamente desigual na sua distribuição.

ODS 13 — Ação Climática: Emissões Globais de CO₂ e Temperatura Média Anômala, 2000–2026
Fonte: IEA / NOAA / IPCC · Emissões em GtCO₂/ano (eixo esquerdo) · Anomalia de temperatura em °C acima da média pré-industrial (eixo direito) · Meta Paris = +1,5°C · ODS 13: ação urgente

O ODS 13 é onde a divergência entre intenção e realidade é mais brutal. As emissões globais de CO₂ continuaram subindo após 2015, com uma pausa em 2020 (pandemia) seguida de rebote. Em 2024, as temperaturas médias globais ultrapassaram pela primeira vez o limite de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais — meta central do Acordo de Paris. O planeta está aquecendo mais rápido do que os modelos do IPCC previam em seus cenários moderados.

Índice de Progresso Normalizado por ODS: avanço médio global 2000–2026 (base 100 = meta 2030)
Fonte: Cálculo próprio com base em SDSN/SDG Index, ONU, Banco Mundial · Cada série representa o progresso estimado em direção à meta 2030, normalizado em escala 0–100 · Linha vertical: adoção dos ODS (2015)

Nota metodológica: as séries são estimativas baseadas em indicadores-proxy disponíveis para cada ODS. A heterogeneidade dos indicadores recomenda cautela na comparação direta entre ODS diferentes. Fonte sintética: SDSN SDG Dashboards 2015–2025.

Os ODS fizeram diferença? O antes e depois de 2015

Esta é a pergunta mais honesta — e mais difícil — que um analista de políticas públicas pode fazer sobre a Agenda 2030. Afinal, parte do progresso observado teria acontecido de qualquer forma, independentemente dos ODS. A mortalidade infantil, por exemplo, já vinha caindo desde os anos 1990. A expansão das energias renováveis obedece a uma trajetória de custos que independe de resoluções da ONU.

O argumento a favor dos ODS como catalisadores reais é mais sutil: eles criaram uma linguagem comum e um sistema de prestação de contas que, mesmo sem enforcement legal, gera pressão política real. Países que apresentam Revisões Nacionais Voluntárias (RNVs) — 190 de 193 países já o fizeram ao menos uma vez — são forçados a medir, publicar e se comparar. Isso importa.

O efeito "benchmark" dos ODS: estudos do SDSN mostram que países com planos nacionais de implementação alinhados aos ODS apresentaram progresso 12–18% mais rápido em indicadores mensuráveis do que países sem esse alinhamento, entre 2015 e 2022. Isso sugere que a Agenda 2030 funcionou como acelerador — mesmo sem ser juridicamente vinculante.

Por outro lado, três eventos não previstos em 2015 criaram fricções severas:

1. A pandemia de COVID-19 (2020–2022) foi o maior choque ao desenvolvimento humano desde a Segunda Guerra Mundial. O Banco Mundial estima que reverteu 5 anos de progresso na redução da pobreza. A OMS calcula que a mortalidade excessiva global entre 2020 e 2021 foi de 14,9 milhões de pessoas — o dobro das mortes oficialmente atribuídas ao vírus.

2. O retorno da guerra em escala (2022–presente) — conflito na Ucrânia, Gaza, Sudão, Myanmar, entre outros — reverteu avanços em segurança alimentar, saúde e paz (ODS 2, 3 e 16) em regiões inteiras. A FAO reporta que o número de pessoas em insegurança alimentar aguda subiu de 135 milhões em 2019 para mais de 280 milhões em 2024.

3. A fragmentação multilateral — incluindo a retirada dos EUA do Acordo de Paris (segunda vez), da OMS, e a declaração explícita de oposição à Agenda 2030 em 2025 — criou um vácuo de liderança e financiamento sem precedentes na história recente das instituições internacionais.

Radiografia global em 2026: quem está no caminho e quem regrediu

Progresso Global Estimado por ODS em 2026 (escala: 0 = sem progresso, 100 = meta atingida)
Fonte: SDSN SDG Index 2025 / ONU SDG Report 2025 · Verde ≥ 60% · Âmbar 40–59% · Vermelho < 40%

Progresso estimado com base em médias ponderadas dos indicadores por ODS. A heterogeneidade interna de cada ODS é elevada — alguns indicadores dentro de um mesmo objetivo estão no caminho, outros regredindo. Fonte: SDSN/ONU 2025.

O padrão que emerge é claro: o progresso é mais rápido onde a solução é predominantemente tecnológica e de infraestrutura, e mais lento onde depende de mudança comportamental, redistribuição de poder ou cooperação internacional.

Os cinco indicadores com maior avanço global desde 2015 são: uso de banda larga móvel (ODS 9), acesso à eletricidade (ODS 7), uso de internet (ODS 9), mortalidade infantil abaixo de 5 anos (ODS 3) e mortalidade neonatal (ODS 3). São todos indicadores cuja melhoria depende essencialmente de investimento em infraestrutura e tecnologia.

Os cinco indicadores com maior regressão desde 2015 são: taxa de obesidade (ODS 2), liberdade de imprensa (ODS 16), gestão sustentável do nitrogênio (ODS 2), índice da lista vermelha de espécies ameaçadas (ODS 15) e percepção de corrupção (ODS 16). São todos indicadores que exigem mudança de comportamento, regulação efetiva e governança robusta.

Sucesso que vale destacar: 54 países eliminaram doenças tropicais negligenciadas — uma das metas do ODS 3 — graças a programas de distribuição em massa de medicamentos. 45 países atingiram acesso universal à eletricidade. Esses resultados provam que metas específicas, financiamento concentrado e liderança técnica funcionam.
Prognóstico para 2030: ODS atingidos, parcialmente atingidos ou não atingidos
Projeção baseada nas tendências 2015–2026 extrapoladas linearmente para 2030 · SDSN / ONU · Cenário de referência sem mudança de política

Projeção linear conservadora. Mudanças abruptas de política — como um plano Marshall verde global — poderiam alterar significativamente os resultados dos ODS 7, 13 e 1.

Eram otimistas demais — ou o mundo mudou?

A resposta honesta é: as duas coisas, em proporções que variam por objetivo.

Onde havia otimismo excessivo desde o início

Algumas metas dos ODS eram ambiciosas ao ponto da ingenuidade, mesmo em 2015. O ODS 2 — erradicação da fome — estabelece como meta "acabar com a fome até 2030". Em 2015, havia 690 milhões de pessoas em situação de fome. Para cumprir a meta, seria necessário reduzir esse número a zero em 15 anos. Isso exigiria não apenas investimento, mas a resolução de conflitos armados, sistemas de distribuição de alimentos radicalmente reformados e a estabilização climática — tudo simultaneamente.

O ODS 10 — redução das desigualdades — é igualmente ambicioso. Pretende "reduzir as desigualdades dentro dos países e entre eles". Mas a desigualdade é estrutural: é o produto de séculos de acumulação diferencial de capital, educação e poder político. Reduzi-la em 15 anos exigiria políticas redistributivas de uma escala que nenhum governo democrático contemporâneo foi capaz de implementar sem resistência intransponível.

O paradoxo dos ODS ambiciosos: metas irrealistas têm um custo político real. Quando um objetivo declarado como "erradicar a fome até 2030" não é cumprido, a narrativa pública tende a concluir que "os ODS falharam" — mesmo que tenham gerado progresso real e substancial. A ambição excessiva pode, paradoxalmente, minar a credibilidade dos avanços reais.

Onde o mundo mudou de forma imprevisível

Os formuladores da Agenda 2030 não poderiam prever com precisão o COVID-19 — embora pandemias sejam riscos sistêmicos conhecidos. Não poderiam prever que as temperaturas ultrapassariam 1,5°C antes de 2030. Não poderiam prever que a maior potência econômica do mundo iria retirar-se formalmente da cooperação multilateral — pela segunda vez em menos de uma década.

Mas poderiam — e deveriam — ter precificado melhor a probabilidade de turbulência geopolítica. A fragilidade do multilateralismo é um dado histórico, não uma surpresa. E a dependência de financiamento voluntário de países ricos para as metas dos países pobres era uma vulnerabilidade estrutural conhecida desde os ODM.

O que seria necessário para cumprir os ODS

O SDSN e a ONU são convergentes no diagnóstico: o problema central não é técnico, é financeiro e político. Os instrumentos existem. As tecnologias estão disponíveis. O conhecimento científico sobre o que funciona é sólido. O que falta é vontade política sustentada e financiamento em escala.

US$ 5–7 tri
investimento anual necessário para atingir todos os ODS (ONU)
US$ 4 tri
lacuna de financiamento anual atual
−7,1%
queda na ajuda ao desenvolvimento em 2024
US$ 7 tri
subsídios globais a combustíveis fósseis/ano (FMI 2023)

O paradoxo mais cruel da situação atual: o mundo gasta anualmente em subsídios a combustíveis fósseis (US$ 7 trilhões, segundo o FMI) mais do que precisaria investir nos ODS (US$ 5–7 trilhões). Redirecionar apenas parte desses subsídios — eliminando os mais distorcivos — financiaria a transição energética e boa parte das metas sociais.

As seis prioridades identificadas pelo SDG Report 2025 para acelerar o progresso nos próximos quatro anos são:

Área prioritáriaODS relacionadosAção-chaveImpacto potencial
Sistemas alimentaresODS 2, 3, 12, 13, 15Redução do desperdício, agroecologia, proteção de solosAlto
Acesso à energiaODS 7, 1, 9, 13Financiamento de mini-redes solares em regiões remotasAlto
Transformação digitalODS 4, 8, 9, 17Conectividade universal, literacia digital, inclusão femininaMédio
EducaçãoODS 4, 5, 8, 10Recuperação das perdas do COVID, qualidade do ensino básicoAlto
Empregos e proteção socialODS 1, 8, 10Pisos de proteção social universais, formalizaçãoMédio
Clima e biodiversidadeODS 13, 14, 15Precificação de carbono, financiamento climático, 30×30Crítico

A reforma da arquitetura financeira global — incluindo o custo do capital para países em desenvolvimento, a reestruturação de dívidas soberanas e o alinhamento do setor privado com os ODS — é condição necessária, não suficiente. Sem ela, os países que mais precisam de investimento pagam as maiores taxas de juros e têm menos margem fiscal para gastar.

O Brasil em foco: um G20 que lidera o discurso e negocia a execução

O Brasil ocupa a 25ª posição no SDG Index 2025, sendo o melhor colocado entre os países do G20. É também o país do G20 mais comprometido com o multilateralismo da ONU, segundo o mesmo relatório. Em 2025, o Brasil presidiu o G20, colocou o desenvolvimento sustentável e a taxação de super-ricos no centro da agenda, e sediou negociações climáticas críticas.

Esses são dados reais. Mas o SDG Index é uma média — e médias escondem heterogeneidades. O Brasil é um país continental com disparidades regionais que, em alguns indicadores, superam as diferenças entre países da Europa e da África. Enquanto São Paulo (57,9/100 no IDSC-BR 2025) se aproxima de cidades de países desenvolvidos, Belém (40,1/100) está em patamar comparável a países de renda média-baixa.

Brasil: Progresso Estimado por ODS em 2026 vs. Média Global
Fonte: SDSN SDG Dashboards 2025 / IBGE / IPEA · Barras azuis = Brasil · Pontos laranjas = média global · Escala 0–100 (100 = meta 2030 atingida)
Brasil: Evolução Temporal de Indicadores Selecionados, 2000–2026
Indicadores escolhidos por disponibilidade de série histórica longa e relevância política · Fonte: IBGE, IPEA, IEA, Banco Mundial, INPE · Meta ODS indicada para cada série

Nota: cada indicador está normalizado em sua própria unidade. A leitura comparativa entre séries deve ser feita com cautela. As linhas pontilhadas horizontais indicam as metas ODS para 2030 de cada indicador (onde aplicável).

Onde o Brasil se destaca positivamente

ODS 7 — Energia: O Brasil possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo entre países de grande porte. Mais de 85% da geração elétrica é renovável (hidro, eólica, solar, biomassa). A eólica onshore e a solar fotovoltaica cresceram exponencialmente — o Brasil é hoje um dos cinco maiores produtores de energia eólica do mundo. O acesso à eletricidade é de 99,8% da população. Neste ODS, o Brasil está genuinamente à frente da curva global.

ODS 1 — Pobreza: A reativação do Bolsa Família reformulado após 2022, com o Auxílio Gás e a integração com serviços sociais, reduziu a pobreza extrema de ~33 milhões (2021) para ~22 milhões de pessoas (2024). O Brasil tem um dos sistemas de transferência condicionada de renda mais avaliados e replicados do mundo — isso é patrimônio institucional.

ODS 3 — Saúde: O SUS (Sistema Único de Saúde) é uma das maiores realizações institucionais do Brasil. A mortalidade infantil caiu de 37 óbitos/1.000 nascidos vivos em 2000 para cerca de 13 em 2024. A vacinação infantil, apesar da queda durante o governo anterior, vem se recuperando. A resposta ao COVID, especialmente a logística de vacinação em 2021–2022, foi internacionalmente reconhecida.

Onde o Brasil está atrasado

ODS 10 — Desigualdade: O Brasil permanece entre os países mais desiguais do mundo. O coeficiente de Gini de renda, embora tenha caído nos últimos anos (de ~0,54 em 2021 para ~0,51 em 2024), ainda está longe das médias de países comparáveis. A desigualdade regional é aguda: o Nordeste tem indicadores sociais equivalentes a países de renda média-baixa, enquanto o Sul tem indicadores comparáveis à Europa meridional. A concentração de riqueza nos 1% mais ricos do Brasil é das mais extremas do mundo.

ODS 15 — Biodiversidade terrestre: O Brasil abriga ~12% de toda a biodiversidade terrestre do planeta — e tem responsabilidade proporcional. O desmatamento da Amazônia caiu 50% entre 2022 e 2024 sob o governo Lula — um resultado real e expressivo. Mas o Cerrado — segundo maior bioma do Brasil e berço das águas — recebe proteção muito inferior à Amazônia, e continua sendo desmatado em ritmo acelerado. O Pantanal, terceiro maior bioma, sofreu incêndios recordes em 2024.

ODS 4 — Educação: O acesso à escola é praticamente universal no Brasil. O problema é a qualidade. Os resultados do PISA mostram desempenho consistentemente abaixo da média da OCDE em leitura e matemática. A evasão no ensino médio permanece alta. A pandemia causou perdas de aprendizado estimadas entre 12 e 18 meses para os alunos mais vulneráveis — e a recuperação está sendo mais lenta do que o esperado.

ODS 16 — Paz e instituições: O Brasil tem uma das maiores taxas de homicídio do mundo — cerca de 20 por 100.000 habitantes, com concentração brutal em populações jovens e negras do Norte e Nordeste. A impunidade é estrutural: menos de 10% dos homicídios resultam em condenação. A violência contra lideranças indígenas e ambientais tem aumentado.

Desigualdade Regional: Indicadores ODS por Macrorregião Brasileira, 2024
Fonte: IBGE / IPEA / IDSC-BR 2025 · Escala normalizada 0–100 (100 = meta ODS atingida) · A heterogeneidade interna do Brasil supera a diferença entre muitos países
A tensão estrutural do Brasil nos ODS: O Brasil é o único país do G20 mais comprometido com o multilateralismo da ONU (SDSN 2025) e lidera o G20 com agenda de desenvolvimento sustentável. Ao mesmo tempo, mantém subsídios a combustíveis fósseis, pressões sobre o Cerrado e o Pantanal, e desigualdades internas que comprometem a credibilidade do discurso externo. Essa tensão entre liderança global e contradições domésticas é o principal desafio político do Brasil na Agenda 2030.

O IDSC-BR: monitorando os 5.570 municípios

O Brasil é o primeiro país do mundo a monitorar o progresso de todos os seus municípios nos ODS — uma iniciativa do Instituto Cidades Sustentáveis (ICS) com o SDSN. O Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades — Brasil (IDSC-BR) 2025 revela que a média nacional subiu de 46,7 em 2024 para 49,9 em 2025 — uma melhora real, mas ainda muito abaixo da metade do caminho.

Entre as grandes cidades, São Paulo (57,9), São José dos Campos (58,3) e Brasília (57,6) têm os melhores desempenhos. Belém (40,1), Maceió (41,7) e São Luís (42,2) têm os piores — e revelam que a agenda ODS no Brasil tem uma dimensão regional que precisa de tratamento específico, não apenas de políticas nacionais uniformes.

Conclusão

O que ficou claro depois de uma década

A pergunta final que qualquer análise honesta dos ODS precisa responder é: valeu a pena? A resposta é sim — com ressalvas. Menos crianças morreram. Mais pessoas têm eletricidade. Doenças foram erradicadas em dezenas de países. O acesso à internet transformou economias. Nada disso teria acontecido da mesma forma, na mesma escala, sem o alinhamento que a Agenda 2030 proporcionou.

Mas a resposta também é: poderia ter sido muito mais. E isso tem um custo humano real, medido em pessoas que continuam com fome, em espécies extintas, em temperaturas que seguem subindo, em conflitos que seguem ceifando vidas. O mundo que a Agenda 2030 prometia em 2015 ainda existe como possibilidade — mas cada ano de inação o torna mais distante, não mais próximo.

Quatro anos. É o que resta. Não para cumprir todos os ODS — isso já não é possível. Mas para decidir o quanto de cada um será cumprido, e o que ficará para a próxima geração carregar.

Referências e fontes