Em 28 de fevereiro de 2026, após ataques coordenados dos Estados Unidos e Israel contra instalações nucleares iranianas, a Guarda Revolucionária do Irã anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz por razões de segurança. Em questão de horas, o preço do barril de Brent subiu 10% na abertura dos mercados asiáticos. Em dias, o JPMorgan reportou que o fluxo de petróleo pela rota havia caído 75%. A AIE anunciou a maior liberação de reservas estratégicas de emergência de sua história: 400 milhões de barris. Depois de semanas de tensão e negociações mediadas pelo Paquistão, um cessar-fogo condicional foi anunciado em abril de 2026 — e o estreito voltou a operar.

Mas o episódio deixou uma lição permanente: a economia global construiu toda a sua infraestrutura energética sobre a premissa de que Ormuz estaria sempre aberto. Essa premissa, ao menos temporariamente, deixou de ser verdade. Para entender por que, é preciso primeiro entender os fluxos — e os dois diagramas do Energy Institute Statistical Review 2024 são o melhor ponto de partida.

20 Mi bpd
de petróleo bruto + derivados passando diariamente pelo Estreito de Ormuz em 2024 — 20% do consumo mundial
84%
do petróleo que passa por Ormuz tem destino Asia-Pacífico — China, Índia, Japão e Coreia do Sul são os mais vulneráveis
2,6 Mi bpd
capacidade máxima das rotas alternativas (oleodutos terrestres) — apenas 13% do fluxo normal pelo estreito
0%
do petróleo brasileiro passa pelo Estreito de Ormuz — mas o preço global nos afeta indiretamente da mesma forma

Parte 1 — Os dois diagramas: como ler o fluxo global de petróleo

O Energy Institute Statistical Review of World Energy — a publicação de dados energéticos mais citada do mundo, herdeira de 70 anos de relatórios da BP — produz anualmente dois diagramas Sankey que mostram como o petróleo se move entre regiões do planeta. Um para o petróleo bruto (crude), outro para os derivados (refined products). Juntos, eles revelam a anatomia completa do comércio global de hidrocarbonetos.

Em um diagrama Sankey, a espessura de cada fluxo é proporcional ao volume. Uma faixa grossa representa muito petróleo; uma fina, pouco. A cor identifica a região exportadora. Lendo da esquerda para a direita: quem exporta → para onde vai.

Oil Inter-area movements 2024 – Crude trade — Energy Institute Statistical Review of World Energy
Figura 1 — Fluxo de Petróleo Bruto (Crude) entre Regiões — 2024
A espessura de cada faixa é proporcional ao volume transportado. Oriente Médio (laranja) domina amplamente as exportações, com o grosso indo para a China. O fluxo laranja grosso para a direita é o coração do problema de Ormuz.
Fonte: Energy Institute, Statistical Review of World Energy 2025 — 74ª edição. Dados de 2024. Disponível em: energyinst.org/statistical-review

O que o Diagrama 1 (petróleo bruto) revela

O primeiro diagrama conta a história do petróleo bruto — o óleo que sai dos campos e vai para as refinarias. Três padrões saltam aos olhos:

1. O Oriente Médio domina as exportações — e quase tudo vai para a Ásia. A faixa laranja do Oriente Médio é de longe a mais espessa do lado esquerdo. E o destino principal é inequívoco: China (maior barra preta à direita), seguida de Índia, Japão e Other Asia Pacific. Este é o fluxo que passa pelo Estreito de Ormuz. A linha laranja grossa que vai da esquerda para a China à direita é literalmente Ormuz visível no diagrama.

2. O Canadá é um exportador enorme — mas quase tudo vai para os EUA. A barra azul escura do Canadá é espessa, mas o fluxo cinza que vai direto para os EUA é dominante. É um fluxo intracontinental via oleodutos — imune a qualquer tensão marítima. Isso explica por que os EUA importam muito petróleo mas têm dependência mínima de Ormuz.

3. América do Sul (S. & Cent. America) exporta principalmente para a Ásia e EUA. A faixa amarela representa principalmente Brasil, Colômbia e Venezuela. O Brasil está aqui — exportando petróleo cru do pré-sal para a China (44% das exportações brasileiras) e EUA (14%). Nenhum desses fluxos passa por Ormuz.

Oil Inter-area movements 2024 – Refined product — Energy Institute Statistical Review of World Energy
Figura 2 — Fluxo de Derivados de Petróleo (Diesel, Gasolina, QAV, GLP) entre Regiões — 2024
O Oriente Médio lidera também em exportação de derivados, mas o mapa é muito mais fragmentado. EUA, Rússia, Índia e Singapura são exportadores relevantes. A África e América do Sul (S. & Cent. America) aparecem agora como importadores significativos — países que têm petróleo bruto mas falta de refino.
Fonte: Energy Institute, Statistical Review of World Energy 2025 — 74ª edição. Dados de 2024. Disponível em: energyinst.org/statistical-review

O que o Diagrama 2 (derivados) revela — e por que é diferente

O segundo diagrama mostra um mundo muito mais complexo. Os derivados — diesel, gasolina, querosene de aviação (QAV), GLP, nafta — circulam por rotas diferentes do petróleo bruto. Algumas observações cruciais:

A Índia emergiu como grande exportador de derivados. A barra azul da Índia no lado esquerdo é expressiva — a Índia importa petróleo bruto (principalmente do Oriente Médio), refina em suas modernas refinarias e exporta diesel e gasolina para a Europa e África. É um modelo de valor agregado no refino que o Brasil ainda não conseguiu replicar.

Singapura é um hub global de derivados. A barra verde de Singapura exporta para toda a Ásia-Pacífico — é um entreposto refinador que processa petróleo do Oriente Médio e distribui derivados para países vizinhos sem refinarias suficientes.

A América do Sul (S. & Cent. America) aparece como importadora. Aqui está o paradoxo brasileiro: exportamos petróleo bruto (visível no Diagrama 1 como exportador amarelo) e importamos derivados (visíveis no Diagrama 2 como importador). O Brasil está nos dois lados dessa equação — e pagamos o diferencial de valor agregado para fora.

A Rússia exporta derivados para a Europa — um fluxo que se remodelou completamente após 2022. Com as sanções da guerra na Ucrânia, os derivados russos que iam para a Europa foram redirecionados para a Índia, China e Turquia, enquanto a Europa passou a importar mais do Oriente Médio e EUA. O mapa de 2024 já reflete essa reorganização.

Parte 2 — O Estreito de Ormuz: a física de um chokepoint

📍 ESTREITO DE ORMUZ — DADOS FÍSICOS E ESTRATÉGICOS

33 km
largura no ponto mais estreito, entre Irã e Omã
2 × 3 km
dois corredores de navegação de 3 km cada (entrada e saída)
~20 Mi bpd
petróleo bruto + derivados que passam diariamente (2024)
20% do GNL
do comércio global de Gás Natural Liquefeito também passa por Ormuz, principalmente do Qatar

Um chokepoint é um ponto de estrangulamento geográfico — uma passagem tão estreita que quem a controla tem poder desproporcional sobre o que flui por ela. O mundo tem vários: o Canal de Suez, o Estreito de Malaca, o Canal do Panamá, o Estreito de Bab-el-Mandeb. Mas nenhum concentra tanto valor energético quanto Ormuz.

A física do problema é simples: os superpetroleiros VLCC (Very Large Crude Carriers) que transportam 2 milhões de barris cada precisam de calado profundo e espaço para manobra. Os dois corredores de 3 km são o mínimo operacional — e ficam inteiramente dentro do alcance de mísseis anti-navio do território iraniano, que domina a margem norte do estreito por cerca de 700 km de litoral.

Origem do Petróleo Bruto que Passa pelo Estreito de Ormuz — 2024 (% do total)
Total: ~17 Mi bpd de petróleo bruto e condensado · Fonte: EIA / Fast Company Brasil / Energy Institute 2025
Destino do Petróleo que Passa por Ormuz — 2024 (% do total)
84% vai para a Ásia · EUA: apenas 2% do seu consumo depende de Ormuz · Fonte: EIA 2025 / OPEB 2026

Parte 3 — A vulnerabilidade assimétrica: quem sofre e quanto

O bloqueio de Ormuz não afeta todos os países da mesma forma. A vulnerabilidade depende de três fatores: (1) quanto do seu petróleo vem do Golfo Pérsico via Ormuz; (2) qual o tamanho das reservas estratégicas disponíveis; (3) se existem rotas alternativas ou fornecedores substitutos acessíveis.

País/Região% petróleo via OrmuzReservas estratégicasVulnerabilidade
Japão~70% das importações~250 dias (IEA)🔴 Crítica
Coreia do Sul~65% das importações~90 dias🔴 Crítica
Índia55% das importações (~2,1 Mi bpd)20–25 dias (!)🔴 Crítica
China~50% das importações (~5,5 Mi bpd)~90 dias + oleodutos Rússia/Ásia Central🟠 Alta
Europa~20–25% do petróleo importado90 dias (obrigação IEA)🟠 Moderada
EUA~2% do consumoSPR (~700 Mi barris)🟢 Baixa direta
Brasil0% (petróleo próprio / América)Limitadas🟢 Indireta (preço)
O caso mais alarmante: a Índia. O país importa cerca de 55% do seu petróleo do Oriente Médio e possui reservas estratégicas suficientes para apenas 20 a 25 dias de consumo — enquanto o Japão tem 250 dias. Para a Índia, um bloqueio prolongado de Ormuz não é apenas questão de preços: é uma ameaça existencial à cadeia industrial. Com 5 milhões de barris/dia de consumo e apenas 20 dias de reserva, o relógio começa a correr imediatamente.
Reservas Estratégicas de Petróleo por País — Dias de Consumo Cobertos (2025)
Quanto tempo cada país aguentaria sem importações via Ormuz usando apenas suas reservas de emergência · Fonte: IEA / EIA / dados nacionais 2025

Parte 4 — As rotas alternativas e seus limites

Existem três infraestruturas que permitem contornar o Estreito de Ormuz — mas nenhuma tem capacidade para substituir o que passa pelo canal:

Rotas Alternativas a Ormuz — Capacidade vs Fluxo Normal (Mi bpd)
Em cenário de bloqueio, os oleodutos alternativos cobrem no máximo 13–27% do fluxo normal · Fonte: EIA / AIE / OPEB 2026

1. Oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita (Petróleo): liga campos próximos ao Golfo ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Capacidade nominal de até 5 Mi bpd — o maior bypass disponível. Mas já opera como rota alternativa parcial mesmo em tempos normais, para evitar custos de seguro em Ormuz. Em crise, seria imediatamente saturado.

2. Oleoduto Abu Dhabi Crude Oil Pipeline (ADCOP) — Habshan-Fujairah (EAU): conecta campos dos Emirados ao terminal de Fujairah no Golfo de Omã, evitando Ormuz. Capacidade: 1,8 Mi bpd. Já opera como rota preferencial dos EAU em momentos de tensão.

3. Oleoduto Goreh-Jask do Irã: projeto iraniano para exportar petróleo direto para o Golfo de Omã sem passar pelo estreito. Capacidade projetada de 1 Mi bpd, capacidade efetiva atual: ~300 mil bpd. Ironicamente, o principal interessado em ter um bypass de Ormuz é o próprio Irã — cujas exportações também dependem do estreito.

Somando tudo: no máximo 2,6–5,5 Mi bpd de capacidade alternativa confirmada contra 20 Mi bpd de fluxo normal. O deficit é estrutural e não tem solução de curto prazo.

Parte 5 — O preço do petróleo e o efeito cascata global

Impacto Estimado no Preço do Brent por Duração do Bloqueio de Ormuz (US$/barril)
Cenário base: Brent a ~US$72/barril antes do bloqueio · Fonte: JPMorgan / S&P Global / Neuberger Berman / Fast Company Brasil 2026

O mercado de petróleo reage não apenas ao que acontece, mas ao que pode acontecer. A simples aprovação no Parlamento iraniano de uma resolução autorizando o bloqueio — ainda sem execução real — fez o Brent saltar ~10% em uma semana em junho de 2025. Quando o bloqueio efetivo começou em março de 2026, o barril ultrapassou US$ 100 em dias.

Os mecanismos de transmissão são rápidos e múltiplos: superpetroleiros ancoram aguardando segurança → fretes marítimos disparam → prêmios de seguro sobem → refinarias reduzem processamento → estoques de derivados caem → preços de gasolina, diesel e querosene sobem em todo o mundo. Tudo isso num prazo de dias a semanas, muito antes de qualquer escassez física ser sentida nos postos de combustível.

Por que os EUA se importam se dependem pouco de Ormuz? Dois motivos fundamentais. Primeiro: o petróleo é um commodity global com preço único — mesmo que você não compre uma gota do Golfo Pérsico, sua gasolina sobe quando o Brent sobe. Segundo: os aliados dos EUA (Japão, Coreia do Sul, parcialmente Europa) são extremamente vulneráveis — uma crise energética nesses países desequilibra alianças e a ordem geopolítica que os EUA sustentam. O secretário de Estado Marco Rubio disse explicitamente em 2025: "Se fecham o estreito, será um suicídio econômico para eles. Mas afeta outros países muito mais que a nós."

Parte 6 — O paradoxo iraniano: a arma que fere quem a usa

O bloqueio de Ormuz é chamado por analistas de "arma suicida" — e com razão. O Irã produz cerca de 4 Mi bpd de petróleo, das quais ~1,65 Mi bpd são exportados. A China é o destino de 90% dessas exportações. Se Ormuz fecha, as exportações iranianas também param — o país corta a própria fonte de divisas.

Além disso, o Irã importa gasolina e derivados refinados. Mesmo sendo grande produtor de petróleo bruto, seu parque de refino é insuficiente para a demanda interna — um espelho invertido do Brasil. Um bloqueio prolongado cria escassez interna no próprio país que o impôs.

Talvez mais importante: a China é quem realmente controla se o bloqueio é sustentável. Com 50% das suas importações em risco e sendo o maior parceiro comercial do Irã, Pequim tem enorme leverage para pressionar Teerã a reabrir a rota. O secretário Rubio pediu publicamente à China que interviesse — um reconhecimento implícito de que a influência chinesa sobre o Irã supera a dos EUA nesse contexto.

Parte 7 — O Brasil e Ormuz: distante no mapa, próximo no preço

O Brasil está bem posicionado geograficamente. Nenhum petróleo brasileiro passa pelo Estreito de Ormuz — nem o que produzimos, nem o que importamos (que vem principalmente da Arábia Saudita por rota direta pelo Atlântico, sem passar pelo Golfo). A Petrobras confirmou que possui "rotas alternativas à região do conflito" e que o abastecimento não seria afetado abruptamente.

Mas isso não nos isola do impacto econômico. O mecanismo é simples e inexorável: o preço do petróleo é global. Quando o Brent sobe de US$ 72 para US$ 100, o diesel importado pelo Brasil fica mais caro — e o Brasil importa ~20% do diesel que consome. Isso eleva os fretes, a inflação de alimentos e o custo de toda a cadeia produtiva.

A posição estratégica do Brasil em crises de Ormuz: Paradoxalmente, o Brasil se beneficia e sofre ao mesmo tempo. Como exportador de petróleo, recebe mais dólares por barril quando o Brent sobe — a Petrobras e o governo arrecadam mais royalties. Mas como importador de diesel e derivados, paga mais caro. E como país com alto custo logístico dependente de fretes, sofre inflação. O saldo líquido depende da duração e magnitude da alta. Em crises curtas, o Brasil tende a sair no zero a zero ou levemente positivo. Em crises longas, a inflação supera o ganho das exportações.
Canais de Impacto de uma Crise de Ormuz no Brasil
Sinal positivo (+) = beneficia o Brasil · Sinal negativo (−) = prejudica · Magnitude relativa estimada · Fonte: análise MosmanLAB / FGV / Petrobras

O que os diagramas de fluxo nos ensinam sobre o mundo

📚 Fonte dos Diagramas

ENERGY INSTITUTE. Statistical Review of World Energy 2025 — 74ª edição. Londres: Energy Institute, 2025.
Figuras: Oil — Inter-area movements 2024: Crude trade e Oil — Inter-area movements 2024: Refined product.
Disponível em: energyinst.org/statistical-review · Acesso em: 09 abr. 2026.

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Fontes e Referências